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São
Paulo, domingo, 29 de agosto de 1999
RENATA LO PRETE
Se um dia for feito levantamento de termos recorrentes no noticiário,
"suposto" terá lugar de destaque no ranking. Calculo que perca apenas
para um punhado de adversários imbatíveis, como os verbos de ação
mais comuns e os declarativos "disse", "afirmou" e "negou".
Esse adjetivo não é o único recurso oferecido pelo idioma para tomar
uma informação com reserva, mas é certamente o mais usado pela Folha.
Seus textos estão repletos de "suposto" (a, os, as). Recentemente,
observei na crítica interna que havia encontrado dois em uma única
frase curta. Não duvidarei se um leitor me disser que encontrou três.
Tempos atrás, um amigo contou ter retirado de uma história, no gargalo
do fechamento, a referência aos "supostos" tiros de que fora vítima
o personagem da notícia. Repórter e fotógrafo haviam constatado pessoalmente
os ferimentos.
Anedotas e insuficiência vocabular à parte, é saudável a preocupação
de tratar com distanciamento o que não está estabelecido, seja qual
for a fonte da informação.
A Folha bate os concorrentes na incidência de "suposto" e de
futuro do pretérito porque, a despeito da frequência com que cai na
conversa dos outros, em especial na do governo, ainda é o jornal que
mais desconfia do que lhe dizem.
O problema, como tantas vezes, é a falta de critério. A professora
de português Priscila Figueiredo, que orienta a Redação, nota que
o uso indiscriminado faz dessa ferramenta uma muleta. "Não fica claro
o que é hipótese e o que é fato."
A confusão não é apenas formal. Compromete a coerência. Na quinta-feira,
uma das reportagens que apresentavam o protesto em Brasília dizia
que "as entidades baseiam seu pedido" de abertura de processo de impeachment
contra o presidente "na suposta interferência de FHC em favor de um
dos grupos que participaram do leilão da Telebrás".
Quando divulgou as conversas do grampo do BNDES, em maio passado,
a Folha concluiu em manchete que o presidente "tomou partido
de um dos grupos" na venda das teles.
Independentemente do juízo que se faça do pedido das entidades, o
"suposta" está sobrando, pelo menos se o jornal acredita no que publicou
antes.
"Quem acompanhou o assunto acha estranho", diz a professora. "Percebe
que falta coesão ao noticiário."
Não pretendo exagerar o alcance deste exemplo. O lapso ocorreu em
um texto periférico. No dia seguinte, ao relatar a entrega do documento
das oposições ao presidente da Câmara, o jornal se referiu aos diálogos
do grampo como originalmente havia feito.
Mas o ruído demonstra que os próprios jornalistas se confundem na
hora de separar o que pode ser assumido como fato e o que deve ser
apresentado como suspeita.
Às vezes o "suposto", em vez de sobrar, falta. Na mesma edição, ao
lado do primeiro exemplo, era esta a abertura de um outro texto: "José
Dirceu, presidente do PT, denunciou ontem um esquema para tentar impedir
ou atrasar a chegada dos ônibus com manifestantes" à capital federal.
Se a Folha estava convencida da existência do referido esquema,
tinha de oferecer elementos que justificassem a afirmação. Como não
o fez, deveria ter guardado distância do que disse o dirigente petista.
Não são todos os jornais que se preocupam com esse tipo de diferenciação.
Mas ela está expressa no "Manual" da Folha e não deveria ser
esquecida pela Redação, porque está longe de ser apenas sutileza de
escrita.
Por fim, há histórias que são uma pilha de "supostos". As ressalvas
são tantas que o leitor começa a procurar, no meio delas, um item
que seja de concreto. Não acha nada. Descobre que lhe venderam, disfarçada,
uma suposta notícia.
Corresponde a esse perfil a inclusão do jogador Ronaldo no caso das
investigações, conduzidas pela polícia italiana, em torno de uma brasileira
suspeita de envolvimento com prostituição e comércio de drogas em
Milão.
A Folha não foi o veículo que mais se entusiasmou com o "escândalo",
mas gastou sua quota de papel e um enviado especial com reportagens
que informavam, em resumo, o seguinte: o atacante da seleção brasileira
estaria entre os supostos clientes da mulher; haveria fotos dos dois
juntos; ela teria o número de telefone de Ronaldo.
Quando há suposições demais, é grande a chance de que a história não
pare em pé.
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