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São
Paulo, domingo, 05 de setembro de
1999
RENATA LO PRETE
Não basta contar uma boa história. Nem reunir algumas e sugerir
que determinada prática possa estar se tornando mais frequente.
Nas chamadas reportagens de comportamento, o jornal não faz por
menos: quer provar que descobriu um novo fenômeno sociocultural.
Em princípio, nenhum problema. Identificá-los, de preferência antes
do leitor, é mesmo uma de suas tarefas. A encrenca começa quando
não há elementos para demonstrar a tese. Em vez de substituí-la
por uma abordagem mais modesta, o jornal apela. De afirmações a
cálculos de última hora, vale tudo para dar ao relato aparência
de rigor científico.
No domingo passado, um dos destaques da capa da Folha era
uma bonita montagem de fotos de futebol soçaite. As imagens mostravam
contusões e lances em que os jogadores estavam prestes a sofrê-las.
O painel remetia para uma reportagem sobre os riscos oferecidos
pela prática do esporte.
Boa idéia para a seção "Saúde", que nem sempre é tão inventiva na
escolha de seus temas. Quase todo mundo conhece alguém que já arrebentou
joelho ou tornozelo em partidas nas quais boleiros de fim-de-semana
misturam excesso de ímpeto com escassez de preparo físico.
São várias as possibilidades em uma página de serviço: apontar as
lesões mais comuns, mostrar que o revestimento precário das quadras
eleva os riscos, explicar por que o exercício eventual e sem orientação,
especialmente depois de certa idade, é ainda mais perigoso do que
a inatividade.
Tudo isso, vale registrar, a Folha fez. Teria bastado para
atrair atenção. Não deve ser pequeno o número de praticantes e de
seus familiares entre os leitores.
Mas, para esquentar o material, foi criada a teoria do soçaite assassino
(ainda que a reportagem não tenha esclarecido se ele machuca mais
ou menos do que futebol de rua, de várzea ou de praia).
A chamada de capa anunciava que a modalidade "tem onda" de contusões.
Toda vez que encontrar essa expressão em título, pode desconfiar.
Ela indica que o redator teve de sair pela tangente, porque não
havia nada de concreto a dizer.
Menos constrangido que o da Primeira Página, o enunciado
interno cravava: "Futebol soçaite faz mil 'vítimas' por dia".
Era o resultado da multiplicação do número aproximado de quadras
para locação em São Paulo pela "estimativa conservadora" de uma
baixa por dia em cada uma delas.
Ou seja, puro chute. Pode ser mais. Pode ser menos. O jornal simplesmente
não sabe. Fabricou um número na tentativa de impressionar o leitor.
Na mesma edição de domingo, também era chute o diagnóstico da Revista
da Folha de que "a indústria do turismo vive um surto sem precedentes
na busca por fortes emoções".
A reportagem de capa narrava histórias saborosas de pessoas que,
na hora de viajar, preferem o deserto da Argélia a Paris e as montanhas
do Afeganistão a Nova York.
Como nas contusões do futebol soçaite, o problema é que o jornal,
não satisfeito em contar os casos e deles inferir uma possível recorrência,
quis logo apresentar sua descoberta como novo padrão de conduta.
A reportagem carecia de qualquer dado, numérico ou não, que sustentasse
generalizações.
Comparados a outros ilusionismos promovidos pelo jornal, os dois
relatados acima são relativamente inofensivos.
Não faz tanta diferença definir se há ou não "grandes chances de
trombar com um ex-colega de classe no lago Titicaca", ou estabelecer
o número exato de vítimas dos chutes no piso sintético.
Os exemplos importam mais pelo que revelam da fórmula utilizada
pelo jornal para produzir notícia.
Uma hipótese. Três ou quatro personagens que a endossem. Um "especialista"
para dar opinião favorável.
Distância de qualquer um que a refute. Está criada uma nova tendência,
sem debate nem consistência.
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