|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
| Em
outro planeta |
 |
|
São
Paulo, domingo, 12 de setembro de
1999
RENATA LO PRETE
Há tempos a Folha não levava um tombo como o que levou no
episódio da saída de Clóvis Carvalho do Ministério do Desenvolvimento.
A semana quebrada pelo feriado pode ter diminuído a repercussão
do desastre, mas quem acompanhou o noticiário nesses dias, e teve
a oportunidade de comparar diferentes veículos, sabe do que estou
falando.
Na máfia da propina, o jornal demorou a se dar conta de um assunto
que vinha crescendo. No ataque à Iugoslávia, as primeiras edições
pecaram por superficialismo e excessiva identificação com a posição
dos EUA no conflito.
Desta vez o problema foi de outra natureza. Não é que a Folha
tenha jogado mal. Simplesmente não compareceu à partida.
Clóvis Carvalho foi despachado do governo entre o final da noite
de sexta-feira, dia 3, e o início da madrugada de sábado.
Passara o dia subindo no telhado, como diz a piada antiga. Na véspera,
havia chamado de covarde, ainda que de forma indireta, seu colega
da Fazenda, Pedro Malan.
O discurso, feito com Malan ao lado durante um seminário, criticava
a "ênfase monocórdia na contenção de gastos", e dizia que é preciso
"arriscar mais, até o limite da responsabilidade", no estímulo ao
crescimento econômico. Não fazer isso seria "outro nome para covardia".
Dos quatro diários de irradiação nacional, "O Globo" foi o único
a saber da demissão a tempo de incluí-la em todos os seus exemplares.
Trouxe pacote completo: fato, bastidor, análise e editorial.
A Folha tomou conhecimento do que se passava por telejornais.
Sua sucursal em Brasília somente confirmou a notícia por volta de
1h, quando o ministro já havia se apresentado ao presidente no Palácio
da Alvorada. Conseguiu colocá-la apenas em parte da tiragem paulistana.
"Estado" e "Jornal do Brasil" também recorreram a trocas. Suas edições,
no entanto, revelavam mais sintonia com o que estava em curso. Um
editorial aqui, um colunista ali, a queda era pelo menos tratada
como possibilidade.
Na Folha havia apenas o registro tardio, impreciso em suas
poucas informações. De acordo com a manchete, o jornal havia apurado
que o ministro pedira demissão. Como hoje é sabido, deu-se o contrário.
Em torno da reportagem, os textos caducos deixavam claro que o jornal
dera como certo que nada de grave ocorreria com Carvalho, seja por
confiança na hipótese "FHC sabia", seja por convicção de que no
atual governo não há limites para o pugilato em público.
O único artigo a comentar o incidente no seminário decretava o fim
do tempo político de Pedro Malan.
Até aí, por mais desagradável que seja para um jornal estar em um
lugar enquanto a notícia está em outro, são coisas que acontecem.
A Folha já se viu na situação oposta: ela com a informação,
os concorrentes procurando rumo.
Perdido o sábado, havia o domingo para recuperar o furo e explicar
as origens e implicações da decisão do presidente. A muitos leitores
isso interessa mais do que saber quem obteve a notícia em primeira
mão.
Qualquer que tenha sido o planejamento anterior de "Globo" e "Estado"
para esse dia, ambos o alteraram para dar amplo espaço ao noticiário
de Brasília. Tinham reconstituição dos eventos, repercussão e artigos
correlatos.
A Folha reunia todas as condições para fazer o mesmo, mas
decidiu radicalizar. Se no sábado estava distante do fato, no domingo
estava em outro planeta.
Com o assunto quente e o leitor à espera de esclarecimentos, optou
por deixar na manchete uma reportagem sobre adoção de crianças.
Nada contra ela. Em circunstâncias diferentes, ficaria bem ali.
Mas jornal não é revista, ainda que aos domingos esteja cada vez
mais parecido com uma. Quando a notícia se impõe, não adianta brigar
com ela.
A chamada secundária na capa remetia para uma cobertura mirrada.
Em ritmo de feriado, a reportagem não apurava praticamente nada
do muito que ficara devendo na véspera.
Habitualmente pródiga em análises, a Folha trazia um único
comentário escrito depois da demissão do ministro.
Não é inédito ver o inesperado ficar sem lugar na edição de domingo,
quase toda concluída até a noite de sexta-feira.
Mas desta vez foi gritante a diferença de temperatura entre o que
estava pronto e o que o deixou de ser feito _com frequência, leitores
têm me procurado para reclamar de discrepâncias desse gênero.
Não é problema planejar o cardápio do final de semana. Pelo contrário,
desde que exista disposição para quebrar o gesso e mudar tudo quando
necessário.
A situação melhorou na segunda-feira. Ainda faltavam bastidores
e interpretação, mas pelo menos a Folha tinha voltado à Terra.
Oferecia mais ou menos as mesmas informações disponíveis em outros
lugares.
Melhorou mais na terça, mas então as histórias já eram outras: o
novo ministro e a expectativa da reunião em que o presidente determinou,
de novo, o fim dos desentendimentos declarados na equipe. Página
virada.
Será uma pena se a Folha, em vez de aprender com o tombo
e usá-lo como exemplo a não ser repetido, buscar consolo ilusório
em teorias do tipo "não tinha tanta importância" e "os outros é
que exageraram".
Será uma pena porque:
a) não é verdade;
b) a questão principal não é Clóvis Carvalho, o Ministério do Desenvolvimento
ou mesmo saber se Pedro Malan sobreviverá à próxima investida de
políticos e jornalistas que pedem sua cabeça.
Para a Folha, agora, o ponto é descobrir por que tantos dormiram
tanto diante da notícia. Não foi cochilo de uma pessoa, mas sono
profundo que atingiu o jornal como um todo.
Nada envenena mais um diário do que partir do pressuposto de que
as coisas não vão acontecer.
*
Nesta semana, atenderei os leitores apenas amanhã. Na terça-feira
viajo para San José, Costa Rica, para participar de seminário que
reunirá ouvidores de imprensa da América Latina.
Durante minha ausência, Rosângela, secretária do Departamento de
Ombudsman, levará à direção do jornal os casos que necessitem de
providências urgentes. Todas as mensagens serão respondidas por
mim a partir do dia 20.
Colunas anteriores
05/09/1999 - Tendências sem debates
29/08/1999 - Tudo suposto
22/08/1999
- Como um patinho
08/08/1999 - Faltou dizer
01/08/1999 - Atropelado pela notícia
subir

|
|
|