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São Paulo, domingo,
19 de setembro de 1999
RENATA LO PRETE
A primeira das duas fotos que ilustram este texto saiu na capa da
Folha de quarta-feira, logo abaixo da manchete "FHC recua
de crítica ao Congresso".
Para quem já esqueceu ou nem tomou conhecimento do assunto, esse
foi um dos capítulos da novela brasiliense da semana. No anterior
o presidente havia tentado transferir para os parlamentares algo
da impopularidade recorde que o atinge. No seguinte disse que não
havia recuado.
Quando peguei o jornal naquela manhã, pensei que o ano e meio longe
da edição deve estar fazendo efeito sobre mim. Certos truques me
incomodam mais do que antes.
Em sintonia com o título, a imagem mostrava FHC batendo palmas e
abaixando a cabeça para Antônio Carlos Magalhães.
A aparente harmonia do conjunto era desfeita pela informação da
legenda: o aplauso e a flexão não eram para o presidente do Congresso,
e sim para o ministro do Desenvolvimento. Alcides Tápias estava
à esquerda de ACM, mas fora de quadro na Folha.
Autor da imagem, o repórter fotográfico Lula Marques explica que
se concentrou em FHC e ACM porque, em razão do atrito da véspera,
eram eles os personagens, e não "mais um ministro tomando posse".
Até aí, estou 100% de acordo.
Defende a foto por achar que ela é a representação exata do que
ocorreu na cerimônia, ainda que tenha sido batida antes do discurso
em que o presidente recolheu o que havia dito.
Não vejo problema na antecedência. Nem subestimo o talento de Lula
Marques, cuja sensibilidade para captar instantes da política rendeu
à Folha, entre muitos trabalhos excelentes, a foto do ministro
Pedro Malan com os cabelos desmanchados pelo vento, tendo à frente
um FHC fora de foco, no desfile de 7 de Setembro.
Acontece que a imagem escolhida por resumir o dia sugere uma cena
que não existiu. Importa pouco que a legenda "mr. M" conte como
foi feita a mágica. Suas letras miúdas não têm como competir com
o impacto da dobradinha manchete-foto. FHC, que bem de fato não
estava, ficou um pouco pior na capa da Folha.
Ouvi colegas sobre o caso. Opiniões divididas. Os que acham que
estou procurando pêlo em ovo argumentam, em resumo, que importante
é o que a imagem simboliza.
Um dos que concordam comigo evoca uma foto famosa de Juscelino Kubitschek.
Ganhou o título "Me Dá um Dinheiro Aí", embora fosse de outra natureza
(vide legenda acima) o pedido que o presidente brasileiro fazia
ao secretário de Estado dos EUA.
A imagem que definiu o momento político e traduziu a manchete da
Folha é uma ilusão de ótica. Ainda que a ilusão seja parte
do fotojornalismo, a discussão sobre seus limites merece ser feita.
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