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São
Paulo, domingo, 03 de outubro de 1999
RENATA LO PRETE
Pânico é palavra que impressiona. Não é medo qualquer, explica o
"Aurélio": "provoca uma reação desordenada, individual ou coletiva,
de propagação rápida". Por seu conteúdo e sonoridade, é palavra
que ajuda a levantar títulos.
No domingo passado, a Primeira Página e a capa do terceiro
caderno anunciaram que os paulistanos estão em pânico por causa
dos fugitivos da Febem. Não assustados. Nem amedrontados. "Em pânico."
Na tentativa de sustentar sua conclusão, a reportagem alinhavou
o seguinte:
a) frases de um punhado de moradores. Uma disse ter visto vários
ex-internos na rua. Outro afirmou ter certeza de que foram eles
os autores de duas tentativas de assalto que havia sofrido. Outra
estava "paranóica" com a situação;
b) frases de autoridades e especialistas. Uma secretária de Estado
reconheceu que "os menores fugitivos podem provocar medo na população".
Um sociólogo concedeu que "há motivo para se preocupar";
c) enquete. Postada no cruzamento entre as avenidas Rebouças e Henrique
Schaumann, a repórter da Folha constatou que, de 40 motoristas
entrevistados, 37 "disseram estar assustados";
d) observação. Ainda no cruzamento, a repórter notou que "quase
todos estão com os vidros fechados e as portas travadas, e se recusam
a abrir para estranhos".
A fragilidade da costura feita pelo jornal é evidente. O temor manifestado
nas declarações dos moradores merece crédito e registro, mas, sozinho,
não justifica o "pânico" do título.
Dali ele espirrou para sucessivas menções no texto, feitas mais
pela Folha do que por seus entrevistados.
Havia também uma "síndrome do pânico de fugitivos da Febem" e várias
referências a "paranóia".
Não é preciso ser do ramo para perceber a inadequação desses termos
aos casos descritos. Basta abrir um dicionário e observar o comportamento
médio das pessoas na rua.
Quanto às frases de autoridades, foram visivelmente "recortadas"
para caber na conclusão do jornal.
No mais, não imagino que outra coisa se esperava ouvir em um dos
cruzamentos mais visados da cidade, nem de onde foi tirada a idéia
de que antes da onda de fugas os paulistanos circulavam despreocupados,
com janelas abertas e portas destravadas.
A própria reportagem foi obrigada a reconhecer que a polícia ainda
não tinha detectado "se houve ou não aumento no número de crimes".
No meio da semana apareceu um percentual. A Secretaria da Segurança
falou em 10% de crescimento nos delitos cometidos por menores em
determinado período de setembro. "Aparentemente, as grandes fugas
tiveram alguma coisa a ver com isso", disse o secretário.
Apesar do caráter fluido da declaração e da ausência de maiores
explicações sobre o número, a imprensa o engoliu sem muitas perguntas.
Não se trata de subestimar a falência do modelo da Febem ou a presença
de cerca de 500 de seus adolescentes no quadro já explosivo das
ruas de São Paulo.
A reportagem de domingo passado partiu de uma preocupação real,
manifestada por muita gente e alimentada, nos dias anteriores, por
alguns casos de violência que chegaram ao noticiário e que tiveram
participação (nem sempre comprovada) de fugitivos.
Mas o jornal não pode reproduzir como manchete o depoimento de meia
dúzia de pessoas, ainda que digam o que sentem. Tem de avaliar o
problema com o máximo de elementos que puder reunir e oferecer reflexão
sobre ele. Se não for assim, fará apenas uma versão piorada das
enquetes de rua que aparecem na TV.
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