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São
Paulo, domingo, 10 de outubro de 1999
RENATA LO PRETE
"Gostaria de fazer uma pergunta bastante simples: a Folha continuará
batendo na Rede Globo?" A questão deste leitor resume o espírito das
manifestações que recebi a propósito da associação que dará origem
a um novo diário especializado em economia, com lançamento previsto
para o segundo trimestre do ano que vem.
Houve queixas exaltadas: "Deveria ter aprendido a não me surpreender
com mais nada. Mas hoje tive um princípio de curto-circuito mental".
E outras irônicas: "Conseguirá a Redação da Folha se manter
incólume diante de tão avassaladora paixão"? Um leitor comparou a
aliança à que foi celebrada entre PSDB e PFL para a eleição presidencial
de 1994
. A parceria firmada entre os grupos proprietários, respectivamente,
do primeiro e do segundo jornal do país em circulação (Folha
e "O Globo") está inscrita em um movimento de concentração de capital
que atinge a economia como um todo.
Faz parte também da estratégia desses grupos para fortalecer posições
diante da perspectiva de aprovação da emenda constitucional que abrirá
o setor de comunicações à participação estrangeira.
Por seu caráter empresarial e pelo potencial de ampliação para novos
negócios, o acordo extrapola os limites do jornal Folha de S. Paulo
e de seu relacionamento com o leitor, objeto central da atenção da
ombudsman.
Mas não deixa de entrar nesse território. A preocupação manifestada
pelas pessoas que me procuraram se refere aos efeitos que a parceria
com a família Marinho poderá ter sobre o jornalismo praticado pela
Folha.
O presidente do grupo, Luís Frias, afirma que a independência será
mantida, seja para criticar as Organizações Globo, seja para divergir
do novo jornal, o mesmo valendo para o outro lado.
"Há uma cláusula clara a esse respeito registrada no acordo", disse
ele em conversa com a ombudsman na sexta-feira.
A desconfiança do leitor da Folha é tão compreensível quanto
a lógica de mercado que determinou a aliança.
Exceto pela profusão de notícias sobre fusões e associações no exterior
e no país, nada do que ele leu no jornal poderia tê-lo preparado para
o anúncio da semana passada.
Pelo contrário. Na imprensa brasileira, é a Folha que faz,
há anos, a oposição mais sistemática às ambições e métodos do maior
grupo de comunicação do país.
Reportagens apontam avanço monopolista das ramificações do império.
Colunistas enxergam manipulação e oficialismo no noticiário da Globo
e de "O Globo".
Se não perde de todo o sentido, esse discurso fica bastante esvaziado
à luz do acordo.
Levando em conta o retrospecto, o leitor tem o direito de considerar
a união tão esquisita quanto os casamentos arranjados da novela das
oito. E de temer que o "dote" inclua uma espécie de anistia jornalística.
A Folha nega que isso vá ocorrer. É importante que o faça,
mas as dúvidas vão persistir. A declaração de intenções terá de ser
testada na prática.
Exemplos em todo o mundo mostram que os parceiros tendem a se conter,
e suas diferenças, a diminuir (a Folha e "O Globo" já têm,
hoje, mais semelhanças do que tinham há poucos anos). É grande, portanto,
o desafio presente no compromisso assumido diante do leitor.
Não é caso de esbugalhar os olhos de espanto, mas de mantê-los bem
abertos, para observar o jornal e questioná-lo no momento.
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