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São Paulo, domingo,
17 de outubro de 1999
RENATA LO PRETE
Há semanas eu não via um assunto dominar a correspondência como
aconteceu, desde domingo passado, com a reportagem sobre o Imposto
de Renda de Ciro Gomes.
Como costuma acontecer com as manifestações à ombudsman, a maioria
condenou o jornal. Neste caso, por ter noticiado que o pré-candidato
à Presidência pelo PPS omitiu receitas do Fisco nas declarações
referentes a 1995 e 1997.
Alguns trechos. "Tenho a sensação de que a Folha força a
barra." "É muito espaço para pouca denúncia." "Por que tanto alvoroço
em torno de um Imposto de Renda malfeito?"
Um protesto se repetiu em várias mensagens. "Agiu-se no estrito
interesse do leitor, ou há alguma razão inconfessável por trás da
iniciativa?" "É por acaso que esta notícia é manchete quando FHC
enfrenta sua mais baixa popularidade?"
A desconfiança presente nas duas perguntas é frequentemente suscitada
por investigações jornalísticas que envolvem políticos. O leitor
quer saber a quem interessa a acusação.
Uma parte da resposta não é segredo para ninguém. Por definição,
divulgações como essa interessam a todos os adversários do atingido,
o que, no caso de um nome em ascensão nas pesquisas, não é pouca
gente.
A outra parte da resposta envolve uma expressão desgastada pelo
uso, mas adequada ao episódio. É do interesse público que a imprensa
se debruce sobre a vida financeira dos candidatos, ainda que cada
um deles e seus respectivos simpatizantes tendam a achar que a regra
só vale para oponentes.
Invasão de privacidade, diagnóstico que chegou a ser mencionado
nos últimos dias, não se aplica ao caso. Aqui importa mais o princípio
do que as cifras apresentadas na reportagem, relativamente modestas.
É evidente que, nessas ocasiões, o jornal procura engrossar o caldo
do feijão com revelações de duvidoso valor informativo.
Exemplo: o destaque dado ao fato de que, em 1997, a então estatal
de telefonia do Ceará pagou R$ 6.300 por uma palestra de Ciro Gomes.
O texto não vai além da tentativa de ligar um irmão diretor à contratação
do ex-governador e ex-ministro.
Se há algum problema em cobrar por palestras, seria apropriado contar
ao leitor que muitos jornalistas, inclusive da Folha, são
adeptos da prática.
Também é certo que, ao emplacar o furo, o jornal tende a cair no
vale-tudo para mantê-lo em evidência. Exemplo: não merece abre de
página uma declaração de Antonio Carlos Magalhães cobrando explicações
de seu ex-aliado e atual desafeto.
Outro: é quase cômico destacar em título que ele "foi professor
de direito tributário e contabilidade", como que para tornar mais
inexplicáveis os erros nas declarações. Ninguém de bom senso imagina
que um sujeito como Ciro Gomes preencha os próprios formulários
do IR.
Embora mereçam registro, as deficiências são secundárias. No principal,
a Folha fez o certo. E a essência da reportagem sobrevive
ao desmentido, por mais enfático que este tenha sido.
Na verdade, se Ciro tivesse mantido a reação inicial (não sei de
que se trata, vou apurar e pago o que estiver devendo), o caso teria
durado menos tempo no noticiário. Sua atrapalhada investida contra
a Receita Federal deu fôlego à história.
Da Folha o leitor deve exigir que a mesma atenção seja dedicada
às contas de todos os outros políticos que estão se lançando, com
graus variados de clareza, à sucessão de 2002.
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