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São
Paulo, domingo, 24 de outubro de 1999
RENATA LO PRETE
Duas pessoas chamaram minha atenção para uma peculiaridade da Folha
de segunda-feira passada: foi uma edição feita de anônimos.
Nesse dia, duas das histórias de maior impacto na Primeira Página
possuíam em comum a característica de ter sido construídas a partir
de personagens que o jornal considerou apropriado não identificar.
A manchete reunia duas reportagens sobre violência policial. Na primeira,
um PM de São Paulo afirmava ter cumprido, em três ocasiões, ordem
de matar suspeitos feridos a caminho do hospital. Na outra, um investigador
de delegacia em Belém relatava sessões de tortura usadas para obter
confissões e castigar presos.
Um pouco abaixo na mesma capa, uma chamada destacava o caso de um
adolescente homossexual ameaçado de expulsão em um colégio paulistano.
Os depoimentos dos dois policiais foram gravados com o consentimento
dos mesmos.
A história do Folhateen o jornal descobriu em carta enviada
pelo próprio garoto ao caderno. A partir dela foram entrevistados
o personagem principal, outros alunos e o diretor.
Este reconhecia que os pais de Paulo haviam recebido pedido para retirá-lo
da escola no ano que vem. Dizia que a medida visa proteger Marcelo,
por quem Paulo se declara apaixonado, da gozação de colegas.
Não havia nomes nas entrevistas com os policiais. Os que mencionei
acima, usados no relato do Folhateen, são fictícios. Nas duas
situações, foi explicado que o anonimato teve por objetivo preservar
os envolvidos, seja de constrangimento, seja de coisa mais séria.
Na quarta-feira, em carta publicada no "Painel do Leitor", um major
da PM paulista acusou a reportagem com o membro da corporação de ferir
a "ética do jornalismo", por não oferecer possibilidade de "verificar
a credibilidade da fonte nem tampouco a veracidade dos fatos".
Em resposta, a Folha afirmou que havia feito as checagens necessárias
para se certificar da consistência do depoimento. E defendeu a publicação
como de interesse público e da própria corporação, pois os desdobramentos
podem ajudá-la a livrar-se de maus policiais.
A argumentação do jornal é procedente. Há casos de relevância noticiosa
que só o anonimato permite trazer à tona sem pôr em risco a segurança,
física ou emocional, das fontes.
Embora de natureza diferente _uma mais institucional, a outra ligada
a questões de comportamento_, as duas histórias de segunda-feira se
enquadram nessa definição.
Abro parênteses para dizer que a série de reportagens sobre violência
policial, iniciada há 15 dias, mostra disposição da Folha para
abordar um assunto que atrai pouca simpatia. Para muitos leitores,
investigar crimes da polícia é o mesmo que "defender bandido". O jornal
merece crédito se, apesar disso, persevera em uma apuração que julga
importante.
De volta ao caso da escola, é certo que poderia ter sido discutido
em maior profundidade. A reportagem não chega a explicar qual é a
posição dos pais de Paulo, nem a questioná-lo sobre o assédio, segundo
ele mesmo sem trégua, a Marcelo, que tem namorada. O jornal se ateve
à denúncia do preconceito.
Ainda assim, não há dúvida de que houve sensibilidade para enxergar
na carta uma grande história, o que pode ser medido não apenas pelo
volume, mas pela diversidade de reações nas mensagens à Redação e
à ombudsman.
O importante, na questão dos personagens não identificados, é ter
critério para reservar o recurso a episódios excepcionais, e cuidado
extremo para garantir de fato o anonimato pretendido.
Nos casos relatados, critério houve. Mas, na reportagem do Folhateen,
o cuidado não foi o bastante. Alguns leitores encontraram informação
suficiente para identificar a escola. Quando essas coisas acontecem,
boas sintenções não são suficientes para eliminar o dano potencial
aos envolvidos.
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