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Os tiros no shopping |
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São Paulo, domingo,
14 de novembro de 1999
RENATA LO PRETE
"Há alguns dias, uma pequena nota na Folha descrevia uma
chacina ocorrida na periferia paulistana. Três jovens conversavam
no portão de casa quando um grupo chegou atirando. Um deles morreu
na hora. Outro conseguiu entrar na casa. Foi morto no banheiro.
Uma menina de 14 anos foi encontrada debaixo da cama e morta à queima-roupa."
"Os matadores teriam comentado depois que houve um erro: aquelas
não eram as pessoas visadas. É possível imaginar o terror da jovem,
assassinada sem entender o que estava acontecendo, assim como a
dor de seus pais e parentes. No entanto, nada disso era relatado
na pequena nota."
"Hoje abro o jornal e vejo nove páginas sobre o caso do atirador
no cinema. Qual o motivo de tamanha diferença?"
A pergunta se repetiu em várias das mensagens que recebi a propósito
da cobertura da chacina no MorumbiShopping.
É simples justificar o destaque que foi dado a ela. Lembro do que
ouvi certa vez sobre furos jornalísticos: você pode não saber defini-los,
mas reconhece quando está diante de um. Assim é também com a pura
notícia. Tomados por qualquer ângulo, os crimes cometidos pelo estudante
de medicina Mateus da Costa Meira pertencem a essa categoria.
Mais complicado é explicar o comportamento mecânico do jornal diante
da violência na periferia paulistana. São as notas curtas de que
fala o leitor. Informam, na melhor das hipóteses, nome e idade das
vítimas. À diferença das que foram mortas no cinema, estas não têm
rosto nem história.
Pode-se dizer que as chacinas nos bairros pobres não têm o ineditismo
da ação no shopping (tradução: tornaram-se tão rotineiras que já
as consideramos parte da paisagem).
E que os elementos da história do cinema são todos muito próximos
do público da Folha (tradução: o público da Folha
não vai à periferia).
E que todos querem saber por que um rapaz criado no leite gordo
compra uma metralhadora e abre fogo no meio da sessão de "O Clube
da Luta" (tradução: não há mistério nas outras chacinas, invariavelmente
atribuídas pela polícia a "dívidas de drogas").
Nenhuma das três explicações torna menos legítimo o questionamento
do leitor, bem ilustrado por um caso da semana que passou.
A "chacina do casamento", de tão chocante, rompeu o formato habitual
da nota curta. Ganhou chamada e foto na capa do jornal de segunda-feira.
Não chegou perto de ocupar nove páginas, mas a única que lhe foi
destinada era capa do caderno São Paulo.
Como o estudante de medicina, os quatro encapuzados atiraram a esmo
e mataram três pessoas. Houve ainda nove feridos entre os cerca
de cem convidados da festa de casamento, realizada em um salão da
Cohab 2, em Carapicuíba.
Apesar do destaque incomum, uma característica da cobertura padrão
de chacinas foi mantida. Na edição do dia seguinte, nada sobre investigações.
Apenas um protesto do cantor de pagode que desenvolve um projeto
social na região. Depois disso, só uma referência escondida, na
sexta-feira, à identificação de suspeitos. São histórias que não
têm continuidade. Em sintonia com as autoridades, o jornal dá de
barato que dificilmente serão esclarecidas.
Nos últimos dias, reportagens em série especularam sobre as motivações
de Mateus Meira. Mas a expressão "acerto de contas" é considerada
suficiente para descrever o que aconteceu em Carapicuíba.
De volta à pergunta do leitor, o problema não está na atenção dada
ao caso do shopping, sob todos os aspectos extraordinário, mas na
"tamanha diferença" de que fala a carta.
Não se espera que o jornal dê tratamento igual a histórias de características
distintas, mas seria bom que tivesse preocupação em mostrar a face,
e não apenas os números, da violência que não é de cinema.
*
Costuma ser assim com casos que mobilizam a Redação por dias a fio.
No início, há abundância do que dizer. Depois, a necessidade de
encher páginas e páginas na tentativa de explicar o inexplicável
acaba resultando em muita bobagem.
Exemplos retirados da Folha de domingo passado, quatro dias
depois dos tiros:
- "Pelos números frios das estatísticas, cada sessão de cinema com
cem espectadores pode esconder um Mateus. Segundo estudos, 1% dos
adultos sofre de esquizofrenia ou outro tipo de paranóia" (abertura
da reportagem de capa do caderno São Paulo).
- "Seu filho tem um distúrbio mental?" (título de quadro no mesmo
caderno).
- "Uma sociedade que produz homens ambíguos e mulheres duvidosas
deve forçosamente produzir alguns delinquentes" (frase retirada
de um livro de citações e editada no quadro "É culpa da sociedade?").
- "Só faltava isso!" (título da capa da Revista da Folha. A reportagem
misturava no mesmo balaio coisas tão distintas quanto o acidente
da TAM, as rebeliões na Febem e as mortes no shopping. Embrulhava
tudo com o inevitável "livro lançado nos EUA" e concluía que, "a
cada tragédia, crescem os temores dos paulistanos").
*
Para quem tem tomado ao pé da letra bilhetes e declarações atribuídos
ao atirador, vale notar que a pior derrapada da Folha nessa
cobertura foi sua "entrevista exclusiva" com Mateus Meira, publicada
no sábado, 6 de novembro. A abertura do pingue-pongue dizia que
as respostas haviam sido dadas "por escrito".
Na quarta-feira passada, a partir de manifestação do advogado do
estudante, o jornal se viu obrigado a explicar que as respostas
não foram escritas por Meira, e sim anotadas por um intermediário
que aceitou levar as perguntas até ele.
O advogado contesta a veracidade das declarações. Diz que não são
de seu cliente. Pode ser estratégia da defesa, mas isso importa
pouco.
O fato é que a Folha enganou seu leitor ao vender aquilo
como "entrevista por escrito", e que não tem como garantir a autenticidade
do que publicou.
O episódio é típico do ambiente de hiperconcorrência que se instala
nessas ocasiões. O repórter olha para o lado e vê que o "inimigo"
já falou (ou anuncia que falou) com o personagem da notícia. Em
vez de manter a cabeça fria, o jornal adere ao vale-tudo.
Tudo isso em troca de informação zero. A pseudo-entrevista era uma
sucessão de "sim", "não" e "não sei" que nada acrescentou ao já
sabido.
Na quarta-feira, a Folha reconheceu que errou ao omitir as
circunstâncias em que obteve as frases. É dizer o mínimo. A rigor,
era preciso ter reconhecido que houve uma fraude.
De acordo com a mesma reportagem, entrevistas de outros veículos
estão sendo igualmente contestadas. Portanto, boa parte do material
que vem sendo usado para construir teorias e decifrar supostos recados
do atirador à mídia está sob suspeita.
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