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São
Paulo, domingo, 28 de novembro de 1999
RENATA LO PRETE
Na quinta-feira, Fortunato Badan Palhares falou à CPI do Narcotráfico.
Na sexta, a Folha concluiu, em seu título de capa, que o depoimento
fez crescer as suspeitas da comissão contra o legista. Na página interna,
o enunciado foi semelhante: disse que o interrogatório "reforçou as
suspeitas".
Se houvesse motivo para crescimento ou reforço, seria uma notícia
e tanto, dada a expectativa que antecedeu a aparição de Palhares diante
dos deputados.
Mas os títulos não encontravam sustentação nem na reportagem nem no
que TV e rádio haviam apresentado na véspera.
Encerrada a sessão na Câmara, já na madrugada de sexta, tudo estava
rigorosamente na mesma. O que se falou ali sobre Palhares já era mais
do que sabido. Ele não caiu em contradição relevante e se safou como
pôde das perguntas que não tem como responder.
Com ou sem depoimento, nada resta da reputação profissional do legista.
Foi demolida junto com as conclusões de vários de seus laudos (o mais
famoso deles, sobre as mortes de PC Farias e Suzana Marcolino, ruiu
por força do trabalho da Folha).
Mas a CPI ainda não apresentou evidência de sua principal acusação
contra Palhares, a de que venderia laudos para o crime organizado.
Portanto, até que surjam novos elementos a linha adotada nos títulos
está equivocada, servindo apenas para fazer coro à incontinência verbal
dos membros da comissão.
"Badan é um mentiroso que vende laudos por encomenda", afirmava um
deles na reportagem. "Não há imperícia, mas má fé", completava. Com
tantas certezas, quem precisa de fatos?
O exemplo serve para ilustrar como vem sendo feita a cobertura jornalística
das apurações conduzidas pela CPI.
Seus parlamentares começaram a trabalhar sem conseguir atenção dos
pares no Congresso, do governo ou da imprensa. Obtiveram a cassação
de um deputado federal (Hildebrando Pascoal, do Acre, preso) e de
um estadual (José Gerardo de Abreu, do Maranhão).
A virada se deu com o depoimento do motorista Jorge Meres Alves de
Almeida. O ex-integrante de quadrilha nomeou alguns dos supostos líderes
do crime organizado, entre eles o deputado Augusto Farias, irmão de
PC.
As informações de Almeida permitiram desenhar elos entre investigações
em curso nos Estados e deram à comissão a visibilidade que tem hoje.
Seus pedidos de prisão alcançaram as manchetes. Seus membros foram
recebidos por FHC.
Exceto por uma ou outra reportagem isolada, a imprensa chegou atrasada
ao assunto. Na Folha, ele só ganhou destaque quando já não
era mais possível ignorar a repercussão dos passos da CPI.
Nas últimas duas semanas, o jornal fez tentativas de ir além da pauta
oferecida pelos deputados. Preparou reportagens sobre roubo de cargas
e sobre os negócios da droga na fronteira amazônica.
Os esforços resultaram em uma espécie de radiografia de cada um dos
temas, mas não chegaram a puxar novos fios de investigação.
Até agora, assim como os outros jornais e as revistas (escrevo na
noite de sexta-feira, antes de conferir as edições deste fim-de-semana),
a Folha se movimenta a reboque da comissão.
Isso faz com que fique presa às declarações dos deputados, reproduzidas
com peso de notícia. "CPI ameaça pedir intervenção em SP." O jornal
sabe que a intervenção na polícia paulista, ainda que viesse a ser
pedida, teria chances praticamente nulas de ser autorizada. Mesmo
assim, dá título destacado para a queixa.
TV ou rádio são essenciais para entender o que se passa na CPI. Não
que apresentem noticiário mais equilibrado, pelo contrário. Mas permitem
acompanhar os depoimentos, que são um espetáculo (no mau sentido).
Salvo pelo comentário de um ou outro colunista, quem apenas lê jornais
não tem idéia do despreparo com que os interrogatórios são conduzidos.
Nos textos isso mal aparece. Ninguém quer ferir suscetibilidades e
ser tratado a pão e água por deputados que têm em mãos sigilos bancários
quebrados.
Não se trata de diminuir a importância da ofensiva dos parlamentares
contra a indústria do crime, nem de lhes tirar o crédito por terem
perseverado quando ninguém dava atenção ao que faziam.
Mas o jornal tem de encontrar um meio de levar a CPI a sério sem aderir
à agenda dos deputados, nem à multiplicação de títulos do gênero "pede
prisão de 50" e "quebra sigilo de 30", de muito barulho e pouca consequência.
É curioso notar que esta comissão, assim como a do esquema PC, tem
um motorista em seu caminho.
A diferença é que o atual foi apresentado ao público pelos deputados.
Eriberto França, o que revelou segredos da Casa da Dinda, surgiu por
obra de uma revista ("Isto É").
Na cobertura atual, a imprensa ainda não encontrou "seu" motorista.
Se descobrir veios próprios de investigação, a Folha estará
fazendo sua parte para que esta CPI não acabe como tantas outras,
frustrando o anseio do leitor.
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