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São
Paulo, domingo, 12 de dezembro de 1999
RENATA LO PRETE
Todo dia chegam contestações, procedentes ou não, ao noticiário do
jornal. O caso é sempre um pouco mais sério quando a suspeita de erro
recai sobre a manchete da edição. Foi o que aconteceu com a de domingo
passado. "Governo dá mais do que ganha em privatizações", dizia o
título da capa.
A Folha somou "os benefícios concedidos às empresas compradoras
de estatais". Chegou ao valor de US$ 45 bilhões, "mais do que o dobro
do ganho obtido com as desestatizações" (US$ 17,9 bilhões, correspondentes
à arrecadação dos leilões menos o valor do patrimônio vendido).
O cálculo foi contestado pelo presidente do BNDES, Andrea Calabi,
em carta publicada na quarta-feira. Seu ponto central é o mesmo que
me foi apresentado por dois leitores: o jornal teria errado ao computar,
na relação dos "benefícios", empréstimos concedidos pelo banco às
empresas compradoras. Isenção fiscal é uma coisa, argumentam Calabi
e os leitores. Operação de crédito, outra. Dinheiro emprestado retorna
na forma de pagamentos.
Em resposta, o editor de Brasil, Fernando Canzian, pondera que:
a) a reportagem deixou claro que não procurou aferir o lucro das empresas
ou o prejuízo do governo com as operações, mas apenas o fluxo de caixa
_a diferença entre o dinheiro que saiu das empresas para comprar as
estatais e o que saiu do governo (ou deixará de entrar, no caso das
isenções) para os vencedores dos leilões;
b) lucro e prejuízo só poderiam ter sido aferidos se o BNDES tivesse
fornecido informações que foram insistentemente pedidas pela Folha,
mas negadas pelo banco (quando recebeu a carta de Calabi o jornal
reiterou a solicitação, de novo rejeitada);
c) o jornal acha plausível computar os empréstimos como benefícios.
Lembra que juros e prazos são muito mais favoráveis do que os oferecidos
por bancos comerciais, e que esses créditos não estão ao alcance de
qualquer empresa.
Não tenho pretensão de bater o martelo sobre essa divergência. Embora
acompanhe o noticiário, meu conhecimento é insuficiente para tanto.
Mas devo registrar que não encontrei, entre sete economistas e jornalistas
da área com quem conversei na semana passada, um que validasse a soma
feita pela Folha.
É positivo que o jornal investigue os números e as histórias não contadas
da privatização, buscando a avaliação de conjunto que ainda não foi
realizada. Estará prestando serviço se obrigar o governo a explicar
por que foram tantas as vantagens dadas aos compradores, e que critérios
foram utilizados para decidir quem as teria.
Nada disso, porém, elimina a exigência de informar corretamente. Se
há equívoco técnico na conta da Folha, o mérito da iniciativa
e a escassez de dados do BNDES não bastam para justificá-lo.
O caso também suscita discussão sobre o uso que o jornal faz das avaliações
que colhe em entrevistas.
Dois economistas foram ouvidos na reportagem. Um deles, Paulo Nogueira
Batista Jr., fez uma série de críticas ao programa de privatizações,
mas nada comentou sobre as conclusões da Folha.
O outro, Roberto Macedo, disse com todas as letras que não é possível
somar empréstimos com isenção de impostos. O jornal registrou, engatou
a marcha e seguiu em frente com sua metodologia.
É exemplo extremo do que o projeto editorial define, em tom de reprovação,
como "auscultação meramente formal do outro lado". Se era para desconsiderar
o alerta, teria sido mais lógico deixá-lo fora do texto.
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