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São
Paulo, domingo, 27 de fevereiro de 2000
RENATA LO PRETE
Os jornais afirmaram em uníssono que a queda de Andrea Calabi, tornada
pública na noite de terça-feira, estava acertada havia pelo menos
uma semana entre o presidente da República e o ministro do Desenvolvimento,
Alcides Tápias, superior hierárquico do presidente do BNDES.
Se isso é verdade, então poucas vezes a imprensa esteve tão por fora
da iminência de uma demissão no governo FHC. Podia saber dos atritos
entre Calabi e Tápias, mas não previa o desfecho e muito menos a data.
Para comprovar, basta percorrer as primeiras edições dos jornais de
quarta-feira (vazada tarde da noite, a informação pegou as rodagens
já iniciadas). Não havia reportagem nem nota de bastidor a dar sinal,
ainda que incompleto, da notícia da véspera.
Tão surpreendida quanto todo mundo, a Folha se virou como pôde
para incluir o relato da degola no maior número possível de exemplares.
A operação deu conta de toda a edição paulistana.
O enunciado da manchete ("Tápias pede a demissão de Calabi") não foi
dos melhores. Menos assertivo que o de outros diários, dava um ar
de situação em aberto a algo que naquela altura era fato consumado.
"Ficou amanhecido", criticou um leitor.
A reportagem não ficou. Dizia com todas as letras, na primeira frase,
que Calabi já estava fora. Mais importante, o jornal conseguiu antecipar
o nome do substituto, Francisco Gros.
Para se refazer da surpresa, a Folha trouxe na quinta-feira
uma edição caudalosa: oito páginas sobre a troca, suas causas e consequências.
Ainda que várias delas contivessem anúncios, o espaço me pareceu um
tanto exagerado.
Mesmo levando em conta a importância estratégica do BNDES e os reflexos
da mudança sobre a disputa de 2002 (o refrão Malan ganha-Serra perde),
é o caso de perguntar quantas páginas seriam necessárias para notícia
mais importante (dá para imaginar várias).
Reconheço que é marca registrada da Folha ser extensiva nessas
ocasiões de entra-e-sai no governo, e não vejo problema maior no fato
de a cobertura ser grande quando ela também é boa.
Nesse dia, foi a melhor que li.
Mas acho que cedo ou tarde o jornal terá de refletir sobre esse modelo
de edição, que em certa medida libera os jornalistas da necessidade
de filtrar e costurar melhor as informações. "Refinar a capacidade
de selecionar" é tarefa prevista no projeto editorial da Folha.
Oito páginas sobre uma substituição de quase-ministro é coisa para
ombudsman, que tem o dever de ler o jornal todo, ou para quem tirou
o dia de folga.
A demissão da semana fez explodir o uso das palavras "monetarista"
e "desenvolvimentista", sempre apresentadas em oposição uma à outra,
e "nacionalista", empregada em parentesco com a segunda.
Em sua primeira explicação sobre o acontecimento, na manchete de quarta,
o jornal disse que Tápias "estava contrariado com a atuação de Calabi,
integrante do grupo "nacionalista". Cabe perguntar a que grupo pertence,
ao menos em tese, o ministro do Desenvolvimento. Pouco importa. A
questão é que o leitor se sente perdido.
Talvez seja impossível fazer jornal sem caracterizações desse gênero,
por menos que signifiquem, mas seu uso indiscriminado serve menos
para informar do que para confundir.
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