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São
Paulo, domingo, 19 de março de 2000
RENATA LO PRETE
Existe um denominador comum nas manifestações de colunistas e leitores
sobre o que a Folha chama de "Pittagate". Todos dizem que não
se surpreenderam com a entrevista da ex-mulher do prefeito de São
Paulo à Rede Globo. Tivesse ela falado mais, como ameaça fazer, a
reação seria a mesma.
Se a corrupção é tanta e tão evidente, resta saber por que este caso,
que já teve outros momentos de pico no noticiário, não pegou antes.
Como Pedro Collor, Nicéa Pitta estava em situação privilegiada para
testemunhar e/ou participar do que agora denuncia. O fator proximidade
garante impacto a suas declarações.
A melhor explicação é a que foi dada por Marcelo Coelho e Luís Fernando
Verissimo: pegou porque virou novela.
"É como se o escândalo em si, conhecido há tempos, não valesse muito",
escreveu o primeiro em seu artigo de quarta-feira na Ilustrada.
No mesmo dia, no "Globo" e no "Estado", Verissimo observou que
no Brasil "a fofoca, ainda mais na forma de indiscrição familiar,
funciona mais do que qualquer outro tipo de exposição jornalística
e, aparentemente, tem mais poder legal do que acusações formais".
No terreno das novelas ninguém supera a Rede Globo. Mesmo que
agora Nicéa esteja falando em toda parte, ela não teria corrido para
os braços de outro veículo na hora de disparar a metralhadora. Nenhum
poderia lhe oferecer tamanha visibilidade.
A constatação não visa diminuir o feito da emissora. É verdade
que, ao longo da semana, as aparições de Nicéa na líder de audiência
foram serializadas até a apelação. Não havia mais o que retirar dali.
Mas a entrevista original, levada ao ar na noite do dia 10, merece
mais elogio do que reparo. A ausência de "outro lado" no trecho mostrado
no "Jornal Nacional" não me parece questão central, porque:
a) na apresentação integral, feita no "Globo Repórter" hora e
meia depois, havia "outros lados" em profusão;
b) se faltou o do prefeito (a emissora diz que ele lhe escapou; ele
diz que tentou, sem sucesso, ser ouvido), vale ponderar que Pitta
já havia dado sua versão para praticamente todos os episódios abordados.
O correto seria tê-lo colocado no programa, mas isso não significa
que sem ele a exibição deveria ter sido suspensa.
Como costuma ocorrer nesse gênero de polêmica, é difícil definir
onde termina a discussão sobre princípios do jornalismo e começa o
ressentimento puro e simples pelo furo tomado.
O problema da abordagem novelesca é que ela pode servir bem à
TV, mas não leva a Folha a lugar nenhum.
Tão surpreendido quanto os concorrentes pela entrevista, o jornal
passou a semana tentando se refazer do susto e encontrar uma linha
de cobertura.
Começou mal. Na terça-feira, sem novidade para destacar, sua principal
reportagem não apenas assumia que Nicéa havia "entregado provas" ao
Ministério Público como adiantava que elas eram "regulares". Tudo
segundo "promotores". Nada de nomes.
Não se trata de desqualificar as denúncias, mas sim de manter a necessária
distância dos interesses de todas as partes envolvidas.
O tom melhorou na quarta-feira, mas foi na quinta que a Folha
teve, pela primeira vez, algo diferente para oferecer: conseguiu e
publicou na íntegra o depoimento da ex-primeira-dama ao MP.
Ele vale mais como documento do que pelas poucas novidades que trouxe,
mas permitiu ao jornal colocar sua manchete no caminho que importa:
o que leva a Paulo Maluf. Em matérias sobre as conexões da prefeitura
com empreiteiras e empresas de ônibus, a Folha está buscando
veios próprios de investigação. Mas é significativo que sua notícia
de maior impacto até agora não tenha vindo de uma reportagem, e sim
da pesquisa que detectou a reviravolta causada pelo furacão Nicéa
nos rumos da sucessão municipal.
As mensagens que recebo deixam a impressão de que a tolerância do
paulistano com o que foi feito de sua cidade chegou ao limite. Não
poderia haver melhor oportunidade para o jornal se mostrar útil ao
leitor-cidadão.
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