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| As duas faces de Elián |
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São
Paulo, domingo, 30 de abril de 2000
RENATA LO PRETE
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Alan
Diaz-22.abr.00/Associated Press
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| Elián,
prestes a ser levado da casa dos parentes de Miami... |
As duas imagens
desta coluna resumiram para milhões de pessoas, no final de
semana passado, o desenlace da saga de Elián González,
há meses em posição de destaque no noticiário
dos EUA e por tabela de quase todo o mundo.
Se é que algum leitor teve como não saber, trata-se
do menino encontrado em novembro na costa da Flórida, agarrado,
assim como dois adultos, a destroços de uma embarcação
vinda de Cuba. A mãe, o padrasto e outras oito pessoas morreram
na travessia.
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Cortesia
de Juan Miguel González-22.abr.00/Reuters
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| ...e
horas mais tarde, com o pai, a madrasta e o meio-irmão |
Elián, 6,
foi acolhido por familiares que vivem em Miami. Desde então,
estes se recusavam a devolvê-lo ao pai. No sábado, agentes
do Serviço de Imigração pegaram a criança
e a levaram ao encontro de Juan Miguel González em uma base
aérea perto de Washington.
A primeira foto foi feita por um free-lancer, durante a operação,
para a agência "Associated Press". Ele estava na casa autorizado
pelos parentes de Elián, com os quais desenvolveu um relacionamento
ao longo da extensa cobertura.
A segunda, distribuída para divulgação, foi tirada
no mesmo dia na casa em que o garoto, o pai, sua segunda mulher (ele
era divorciado da mãe de Elián) e o bebê do casal
estão alojados na base. O autor é o advogado de Juan
Miguel.
A guerra das fotos traduz a guerra de propaganda pela posse de Elián,
que opõe o regime cubano à comunidade anticastrista
de Miami, com o governo dos EUA em atípica inclinação,
ainda que dissimulada, pela primeira parte.
Uma imagem mostra o menino apavorado com a invasão armada,
ao lado de um dos homens que o salvaram do mar. Na outra ele aparece
sorrindo abraçado ao pai.
No fechamento de suas capas de domingo, editores tiveram de escolher
"a" foto. Alguns jornais, como "The Washington Post" e "Los Angeles
Times", decidiram-se pelas duas, publicadas lado a lado.
"The New York Times" ficou com a segunda. Ela não existia no
início da rodagem. Quando chegou, a primeira foto foi movida
para uma página interna. Ficaram na capa pai e filho reunidos
e, com menos destaque, Elián chorando no colo de uma agente
na saída da casa dos parentes.
Muitos diários deram na primeira página apenas a imagem
da operação. Foi o que fez a Folha. Não
há problema sério na opção, embora a de
duas fotos fosse a ideal no caso.
A cena de Miami tem ação, temperatura e impacto em níveis
muito elevados para ser desprezada como notícia. Além
disso, é tolice pensar que a via salomônica garante,
sozinha, equilíbrio à edição.
O que o leitor mais precisava era de contexto para avaliar uma história
repleta de manipulação. E aí está o problema,
pois contexto foi o que faltou na capa da Folha de domingo.
Relativamente curto, o título da chamada ("Elián, 6,
é tirado à força de parentes") não permitiu
dizer que o menino foi "tirado de parentes" para ser devolvido ao
pai. Outros jornais reuniram as duas informações em
seus enunciados.
O texto omitia que os familiares estavam detendo o garoto de forma
ilegal, sem o consentimento do pai e das autoridades de imigração.
Também não esclarecia que a operação foi
decidida após fracassadas tentativas de negociação.
Para completar, a chamada assumia como fato a versão do rapaz
que aparece ao lado de Elián na foto. Segundo ele, o menino
gritava ("O que está acontecendo? Ajudem-me") ao ser levado
do quarto.
O pacote formado por foto, título incompleto e texto enviesado
é uma aula de parcialidade jornalística. Vale lembrar
que isso não aconteceu em um dia qualquer, e sim no desfecho
da novela (primeira fase ao menos) do "náufrago cubano".
Não parou por aí. Título da chamada de segunda-feira:
"Pai fraudou foto em que Elián sorri, diz parente". Era aposta
em cavalo errado. A própria reportagem permitia perceber a
fragilidade da acusação, que veio a ser refutada (o
sorriso pode ou não ser espontâneo; fraude é outra
coisa).
No mesmo dia, uma descrição da foto da invasão
afirmava que o menino estava "sob a mira" da arma do agente. Àquela
altura, exaustiva discussão sobre esse ponto nos EUA já
havia concluído que não estava.
Na terça-feira, reportagem sobre a ameaça de greve em
Miami lembrava que, no sábado, os familiares haviam "perdido
a guarda" do menino, como se pudessem perder o que não tinham.
Até pouco tempo atrás, o quadro "para entender o caso"
ensinava que Fidel Castro "tem capitalizado o episódio politicamente".
Sem dúvida. Apenas se esquecia de ponderar que os candidatos
à sucessão de Bill Clinton tentam fazer o mesmo.
Tudo somado, o leitor pode achar que o jornal vive um surto de obsessão
anticastrista. É mais provável que se trate de uma mistura
de ingenuidade e desinformação.
Em meio à guerra das fotos, a Folha será útil
se conseguir mostrar tudo o que existe entre os extremos de Elián
capturados nas duas imagens. Até agora o jornal ficou longe
disso.
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