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São
Paulo, domingo, 21 de maio de 2000
RENATA LO PRETE
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Não é de hoje que leitores protestam contra reportagens da Folha
sobre o MST, mas nunca recebi tantas mensagens como na semana passada.
Foram causadas por três manchetes consecutivas. A primeira, de sábado
dia 13, informou o resultado de pesquisa do Datafolha: “Paulistanos
são contra invasões” (de terras, 70%; de prédios públicos, 75%).
No domingo, o principal destaque foi uma reportagem dando conta de
que o movimento recolhe 3% dos créditos oficiais para assentados (“MST
desvia verba da reforma agrária”).
Na segunda, a reação: “Governo suspende verba para reforma agrária”.
A decisão foi atribuída, ainda que indiretamente, à notícia do dia
anterior.
“Está parecendo que a Folha resolveu
aderir à política do governo FHC de instaurar no país um comando de
caça ao MST”, escreveu um professor. Ele usou o slogan famoso para
questionar o jornal: “Tenho a impressão de que o rabo não está preso
com o leitor, e sim com o poder”.
Para outro leitor, a imprensa “firmou acordo para ministrar tratamento
de choque” aos sem- terra. Um terceiro descreveu a matéria de domingo
como parte “da escalada organizada pelos meios de comunicação sob
a batuta do Palácio do Planalto”.
Outra carta na mesma linha: “Está em questão a tão cara independência
deste diário, que apresentou a mesma subserviência de ‘Veja’ e outras
publicações aos objetivos do governo”.
Presente em várias das manifestações, a teoria da ação coordenada
diz respeito ao tom predominante no noticiário sobre a mais recente
ofensiva do MST.
Seu exemplo extremo foi a revista da Abril de duas semanas atrás (“A
tática da baderna”), cuja medida era dada pela fotomontagem do dirigente
João Pe dro Stedile vestido de James Bond, porque os sem-terra, como
o agente 007, “sentem-se autorizados a cometer crimes durante suas
ações”. Embora a pesquisa levada à manchete tenha entrado no bolo
das críticas, o que de fato incomodou esses leitores foi a edição
de domingo, que trouxe, além da história dos 3%, longa entrevista
com Stedile.
“Do tipo interrogatório”, disse um dos que me escreveram. “Não
me lembro de ver tanta ênfase de repórteres da Folha
quando entrevistam políticos co- nhecidos e influentes acusados de
corrupção”, reclamou outro.
Autor do pingue-pongue, o secretário de Redação Fernando Canzian
discorda do protesto. Não considera que sua abordagem tenha sido agressiva.
“Foi assertiva”, diz, “e graças ao tom direto Stedile falou coisas
que não havia dito antes”.
O jornalista cita, entre essas coisas, “o reconhecimento de que o
MST foi ingênuo ao achar que a reforma agrária resolveria o problema
da pobreza no Brasil, que se politizou como resposta ao modelo neoliberal
e que os as sentados não têm como sobreviver sem os subsídios do
governo”.
Canzian acrescenta que seu encontro com o líder dos sem-terra transcorreu
“em clima cordial”.
Foram quatro as principais restrições à reportagem sobre o “pedágio”:
a) o assunto não é novo;
b) o destaque foi desproporcional à relevância da notícia;
c) a entrevista com um diretor de cooperativa no Paraná, parte desse
material, foi ainda mais dura do que a realizada com Stedile;
d) leitores enxergaram na rapidez com que foram anunciadas providências
um sinal de acerto prévio entre jornal e governo.
“Não desconhecia que aqui e ali haviam falado sobre os 3%”, responde
Josias de Souza, diretor da Sucursal de Brasília e autor da reportagem.
“Mas o MST alegava tratar-se de contribuição voluntária. Pude
verificar, em três assentamentos no Paraná, que o pagamento é exigido,
e os que se negam a fazê-lo passam por constrangimento.
” Sobre o destaque: “O caso me parece tão grave quanto o de prefeituras
que deixam de aplicar o devido percentual em educação, por exemplo.
É desvio de dinheiro público da mesma maneira”.
O jornalista diz que não houve acerto. Imagina que o governo soubesse
das investigações da Folha porque elas incluíram
busca de informações no Incra e no Ministério da Reforma Agrária.
Por fim, defende o tom da entrevista com o diretor da cooperativa.
“Tinha de ser incisivo, porque ele se recusava a explicar as irregularidades
constatadas pela reportagem.”
Simpatizantes não devem esperar que a Folha
abrace a causa do MST, deixe de se interessar pela contabilidade do
movimento e ligue o gravador para que seus líderes dêem livre curso
às idéias, sem a intromissão de per guntas difíceis.
Mas o leitor, seja qual for sua inclinação, tem o direito de esperar
que o jornal não perca a cabeça quando o assunto é MST, preocupação
que boa parte dos concorrentes nem mesmo finge ter.
Sem dúvida existe relevância jornalística em explicar a origem dos
recursos do movimento. Ainda que tenha resgatado informações conhecidas,
a matéria de domingo acrescentou novidades a esse respeito.
Mas, como manchete, ela não resiste a um teste comparativo com os
descalabros ora em pauta, para não falar de casos menos recentes.
De volta à conversa com Stedile, quer tenha sido assertiva ou agressiva,
leitores têm um ponto ao dizer que costuma ser diferente o tratamento
dispensado a entrevistados mais poderosos e/ ou afinados com posições
do jornal.
Quanto ao “reconhecimento de que o MST se politizou”, cabe perguntar
quando esse movimento não foi político, e por que a imprensa, em coro
com o governo, usa o adjetivo como sinônimo de anomalia.
Há algo estranho quando a manchete da Folha
serve de base para o editorial do “Estado”, o que ocorreu na terça-feira.
É preciso tomar cuidado para que a cobertura dos sem-terra não acabe
sendo feita pelos sem-diferença.
Último leitor: “Espero que conflitos sociais não sejam tratados pelo
jornal como doença a ser extirpada, pois são componentes da democracia”.
Não se pode acusar a Folha de ter subestimado
o confronto de quinta-feira passada na avenida Paulista. O choque
entre policiais e servidores da saúde, educação e estudantes foi manchete
e recebeu cobertura detalhada na edição do dia seguinte.
Do que se pode acusar a Folha e não passou
dia, nas últimas semanas, sem que pelo menos um leitor o fizesse é
de não ter dado a devida atenção ao movimento por reajuste salarial
que culminou naquele conflito.
As greves que atingem as universidades públicas de São Paulo e as
redes estaduais de ensino e saúde, bem como o funcionalismo federal,
têm recebido tratamento que varia da superficialidade à omissão pura
e simples.
Apenas no caso das universidades houve uma ou outra reportagem de
maior fôlego. Ainda assim, nada que chegasse a refletir a gravidade
da situação e de suas potenciais consequências.
Agora é torcer para que a batalha da Paulista tenha aberto os olhos
do jornal.
A conferência anual da ONO (Organization of News Ombudsmans)
será realizada de hoje a quarta-feira em Montreal, no Canadá. Devido
à minha parti cipação no encontro, o atendimento ao leitor estará
suspenso esta semana.
Casos urgentes serão encaminhados à direção do jornal por Rosângela,
secretária do Departamento de Ombudsman. Todas as mensagens serão
respondidas por mim a partir do dia 29.
Colunas anteriores
14/05/2000 - Uma reposta simples
07/05/2000 - Tendencioso por omissão
30/04/2000 - As duas faces de Elián
23/04/2000 - O leitor pergunta
16/04/2000 - Tudo igual pontocom
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