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São
Paulo, domingo, 28 de maio de 2000
RENATA LO PRETE
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Há um ano, registrei aqui os resultados de uma pesquisa feita nos
EUA para aferir a credibilidade dos jornais, tema de debate na conferência
de 1999 da ONO (Organization of News Ombudsmen).
Um novo capítulo dessa história entrou na pauta da reunião mais recente
dos ouvidores, realizada na semana passada em Montreal (Canadá). Desta
vez foram discutidas as iniciativas tomadas em resposta às conclusões
do levantamento.
Em resumo, os números divulgados no ano passado mostram que o público
avalia mal os jornais no que diz respeito a quantidade e gravidade
de erros, disposição para corrigi-los, sensacionalismo e manipulação
do noticiário em benefício de grupos de interesse.
Indicam também um descompasso entre a imagem que os jornalistas têm
de seu trabalho e a percepção do público, bem mais crítica.
Assim como a pesquisa, as experiências relatadas em Montreal integram
um projeto desenvolvido desde 1997 pela Asne (American Society of
Newspaper Editors).
No primeiro momento, ele procurou quantificar e apontar causas do
declínio da confiança do leitor. Agora, oito jornais norte-americanos
de pequeno e médio porte estão servindo de laboratório para a busca
de soluções.
Pelo que foi apresentado no encontro da ONO, há de tudo nesses programas.
Alguns parecem investir mais em relações públicas do que no combate
às deficiências.
Um jornal da Flórida passou a convidar leitores a examinar provas
de suas páginas antes do fechamento, para que eles identifiquem erros
e experimentem a pressão de tempo a que os jornalistas são submetidos.
Outro, da Virginia, também decidiu chamar leitores, mas para participar
das reuniões de produção e edição.
O mesmo diário instituiu uma seção chamada "O que está na capa", destinada
a esclarecer os critérios que determinaram a escolha das notícias
da primeira página. O objetivo é desfazer a repetida noção de que
só ganha visibilidade "o que vende jornal".
Nos dois primeiros casos, passado o efeito novidade, o interesse em
ir à Redação caiu bastante, talvez porque as pessoas tenham mais o
que fazer e esperem, compreensivelmente, que jornalistas se encarreguem
do jornal.
No terceiro caso aconteceu algo curioso. Os leitores aprovaram a nova
seção, mas por achar que se tratava de um resumo das notícias do dia.
Quando o propósito ficou claro, cartas começaram a pedir que as explicações
fossem deixadas de lado para dar lugar à síntese, considerada mais
útil.
Além da escassez de resultados concretos, esse tipo de iniciativa
carrega uma fragilidade de origem. Traz embutida a idéia de que a
credibilidade pode ser resgatada por meio da adulação a um leitor
cada dia mais arredio, e não por medidas internas que tornem o produto
melhor e mais necessário.
Em uma transferência não declarada de responsabilidade, é como se
o jornal dissesse ao leitor: "se assim não está bom, então faça do
seu jeito".
Nem todas as experiências desenvolvidas dentro do projeto da Asne
seguem essa linha. Há vários programas voltados para o aperfeiçoamento
do conteúdo.
Alguns diários tomaram as críticas como base para melhorar sua política
de reconhecimento de erros. Embora saibam que nada elimina a necessidade
de avaliar caso a caso, decidiram estabelecer e divulgar critérios
sobre o que deve ser corrigido, na tentativa de evitar notas inúteis
e garantir que falhas relevantes não passem em branco.
Pode parecer modesto, mas não custa lembrar que na Folha, onde
o "Erramos" é seção há muitos anos, às vezes não encontro argumentos
para explicar ao leitor por que determinado erro foi corrigido e outro,
de natureza igual ou mais grave, não.
Dos oito casos, o que me pareceu mais interessante foi analisado sem
grande entusiasmo pela representante da associação dos editores, sob
o argumento de que, a despeito das qualidades do programa, o jornal
não o anunciou com suficiente alarde.
Mas, de olho no mérito e não no barulho, vale a pena conferir o questionário
para avaliar reportagens elaborado pelo "San Jose Mercury News", diário
que circula na região da Califórnia dominada pela indústria de informática.
Simples e relativamente curta, a lista foi montada a partir de deslizes
cometidos com frequência. Inclui questões que buscam evitar erros
pontuais e outras de natureza mais ampla.
Não há preenchimento de formulários, eletrônicos ou em papel. A idéia
é que cada texto, antes de ir para a página, seja submetido a um exame
rápido. As perguntas, visíveis ao lado de cada um dos computadores
da Redação, são as seguintes:
1. Nomes, cargos e lugares mencionados nesta reportagem foram
checados?
2. Números de telefone e endereços eletrônicos fornecidos pelas
fontes foram testados?
3. As declarações entre aspas estão precisas e corretamente
atribuídas? Elas refletem o que o entrevistado quis dizer?
4. O texto inclui memória do assunto tratado?
5. O lide se sustenta?
6. A reportagem é isenta?
a) Todas as partes interessadas estão identificadas e tiveram
oportunidade de se manifestar?
b) A quem a reportagem vai desagradar? Por quê? Algum problema
nisso?
c) A reportagem toma partido? Faz juízos de valor? Agradará
demais a alguém?
7. Que informação está faltando nesta história?
Em teoria, o questionário deve ser aplicado por repórter e editor
em conjunto. Na prática, nem no Vale do Silício o fechamento de um
jornal diário permite tanta conversa.
Segundo o editor-executivo, David Yarnold, a rotina em dupla costuma
ser seguida nas principais reportagens do dia. Nas demais, o repórter
cuida da checagem sozinho.
Yarnold acha que, mesmo quando nem para isso sobra tempo, a simples
presença das questões durante a elaboração do texto contribui para
torná-lo mais completo e equilibrado.
No começo, ele diz, houve ceticismo. Para que o método, ponderavam
alguns, se essas perguntas devem ser segunda natureza para qualquer
jornalista? Porque no dia-a-dia não funciona dessa maneira, responde
o editor-executivo.
O questionário não fará a mágica de reverter a chamada crise de credibilidade
e muito menos o declínio da leitura de jornais nos EUA, pano de fundo
dos esforços empreendidos pela Asne.
Mas aplicá-lo é um exercício interessante. Ele se preocupa com noções
básicas. O desrespeito a elas é responsável por boa parte dos absurdos
publicados.
Sem pretender fazer pouco dos erros pontuais, minhas perguntas favoritas
são a 5 e a 6, que tratam, respectivamente, de consistência e isenção.
O leitor pode fazer o teste, na Folha e em outros jornais,
e depois me contar suas conclusões. Aposto que ficará impressionado
com a quantidade e a proeminência das reportagens reprovadas.
Colunas anteriores
21/05/2000 - Os sem-diferença
14/05/2000 - Uma reposta simples
07/05/2000 - Tendencioso por omissão
30/04/2000 - As duas faces de Elián
23/04/2000 - O leitor pergunta
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