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São
Paulo, domingo, 4 de junho de 2000
RENATA LO PRETE
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Com frequência
me vem à cabeça o questionário para avaliar reportagens de que falei
no domingo passado. Impressiona a quantidade de textos que não resistem
àquelas perguntas simples, elaboradas pelo "San Jose Mercury News"
na tentativa de diminuir a ocorrência de erros e distorções no noticiário.
Ao voltar da reunião anual dos ouvidores de imprensa, encontrei
entre a correspondência acumulada mensagens de três leitores que pediam
minha atenção para a capa da Ilustrada de
24 de maio.
"MAM vê 'privatização branca' do Ibirapuera", dizia o título.
Seu complemento: "Secretário Ricardo Ohtake recebeu R$ 200 mil para
fazer os catálogos da Mostra do Redescobrimento".
Cada um a seu modo, os três leitores procuravam me mostrar que a capa
não sobrevivia a várias perguntas do questionário ("A reportagem é
isenta? Toma partido? Todas as partes interessadas tiveram oportunidade
de se manifestar?").
Segundo a matéria, "privatização branca" serve para definir "o
modo como a Associação Brasil 500 Anos obteve espaços no parque paulistano
para realizar a mostra".
Um desses espaços é a Oca, parte do conjunto projetado por
Oscar Niemeyer. Ela é pleiteada há anos pelo MAM, alojado de maneira
irregular sob a marquise do Ibirapuera.
O superintendente do museu usou também o termo "mágica", que para
a Folha "seria a relação de Edemar
Cid Ferreira", presidente da associação, "com o secretário municipal
do Verde e Meio Ambiente" (ex-secretário desde o afastamento de Celso
Pitta).
Procede a queixa dos leitores. A reportagem assumiu nitidamente
a acusação. Para reforçá-la, vendeu como novidade a história dos catálogos,
que já era conhecida.
Ohtake argumenta que seu escritório foi contratado há três anos,
antes do período na secretaria. Isso não encerra o assunto, mas o
elo estabelecido pelo jornal se baseou em uma ilação.
De volta ao texto: "A Folha apurou
que Ohtake interferiu na negociação (que permitiu à mostra usar a
Oca)". Interferiu como? De maneira irregular? Se tivesse interferido
em favor do MAM haveria problema? Não é esclarecido.
"Juridicamente, a Associação Brasil 500 Anos tomou todos os cuidados."
Tradução: não temos como provar que foi feito algo de errado. "Politicamente,
porém, auxiliares do prefeito relatam, sob reserva, como Ohtake ajudou
Cid Ferreira."
Por fim, a oportunidade de o arquiteto se manifestar foi confinada
ao meio do texto, em total desequilíbrio com o teor da acusação.
Houve espaço, no entanto, para garantir um título ao dono do restaurante
do parque, que também atacava o secretário. Dias depois, saiu uma
carta de Ohtake na página 3.
Os autores discordam das críticas. "A reportagem trouxe à luz
um debate, antes travado à sombra, sobre o uso de um bem público",
escreveram à ombudsman os repórteres Kennedy Alencar e Fabio Cypriano.
A intenção é louvável, mas nem de longe foi alcançada.
A matéria existe, sem dúvida. Está em curso uma pesada disputa
dentro do conselho da Fundação Bienal, que criou a Associação Brasil
500 Anos. O litígio se reflete, entre outras coisas, no caso relatado
pela Folha.
O destino do parque é tema de grande interesse para os paulistanos,
e por isso merece investigação. Mas não é agindo como porta-voz de
partes envolvidas que o jornal prestará serviço ao leitor.
Lendo as edições da semana em que estive fora dei com outra capa
da Ilustrada que me fez lembrar do questionário.
"Militares regeram festival de música da Globo", afirmou a manchete
do caderno em 27 de maio.
Desta vez, a pergunta da lista ("O lide se sustenta?") teve de
ser substituída por outra ainda mais básica, porque o próprio título
não parava em pé.
Resumo. Em entrevista à Folha,
o organizador do 7º Festival Internacional da Canção disse que a emissora
"recebeu e acatou pressões" para tirar a cantora Nara Leão do júri.
Todo o corpo de jurados foi substituído. A versão mais conhecida
do episódio dá conta de que isso teria ocorrido para evitar a vitória
da pouco comercial "Cabeça", de Walter Franco.
Bobagem, segundo o organizador e o assessor de imprensa do evento.
Do outro lado, dois jurados destituídos questionaram o depoimento
e reafirmaram a tese anterior. Apesar da ausência de consenso e de
prova, o jornal apresentou a versão como fato.
"Não foi um título adequado", reconhece o editor interino
da Ilustrada, Cassiano Elek Machado. Segundo
ele, foi feita uma troca, a certa altura da rodagem, para incluir
no enunciado um preventivo "diz organizador".
Foi o único problema visto pelo jornalista na reportagem, que
não se deu ao trabalho de ouvir ninguém da cúpula da Globo nem personagem
que pudesse responder, ainda que indiretamente, pelo sujeito "militares".
"Não chegou a nossas mãos nenhuma carta contestando a teoria que
apresentamos", diz o editor interino. "Se fosse mentira que 'militares
regeram festival da Globo de 72', certamente teríamos recebido manifestações."
Tradução: está tudo bem, desde que ninguém ligue para
reclamar. Seria bom lembrar que o silêncio não resulta necessariamente
de acerto. Pode ser também sintoma de irrelevância.
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