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| Depois
do ônibus |
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São
Paulo, domingo, 18 de junho de 2000
RENATA LO PRETE
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Luís
Bettancourt/Folha Imagem- 12.jun.00
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| Levado
por PMs, Sandro do Nascimento chega ao camburão... |
“Ele ainda
saiu vivo do local.” Era Sandro do Nascimento, o bandido que manteve
reféns sob mira de revólver e repetidas ameaças na segunda-feira passada,
em um ônibus, na zona sul do Rio.
A frase destacada acima surgiu no último parágrafo do texto que abriu
a cobertura da Folha no dia seguinte. Não
estava errada, mas de certo modo perdia o ponto da história.
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Reprodução
TVE - 12.jun.00
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| ...na
sequência, é empurrado para dentro do carro da
polícia |
O “ainda” transmitia a idéia de que Sandro teria começado a morrer
na
rua, atingido pelos
tiros que marcaram o fim do se questro. As fotos, no entanto, mostravam-no
bem vivo, 100% vivo, quando foi levado pelos policiais.
Outros jornais pontuaram seus relatos com algumas pistas. Um observou
que Sandro foi visto andando. Outro colocou em dúvida que ele tivesse
sido baleado.
Não se trata de julgar, a partir de uma única frase, o desempenho
da Folha no caso da semana. Ele não foi especialmente
bom, mas também não foi ruim.
A frase é detalhe que ajuda a iluminar um problema. Sua formulação,
assim como a ausência de informações que a complementassem, sugere
que o jornal teve dificuldades para identificar, no calor do momento,
a segunda notícia desse episódio.
A primeira estava no ônibus: as quatro horas de terror que terminaram
com a morte da refém Geísa Firmo Gonçalves. Impossível não enxergar
a primeira notícia. O país inteiro a acompanhou pela televisão.
A segunda notícia estava den tro do camburão. Ali não houve TV.
Uma leitora me procurou para criticar referência feita a Anthony Garotinho
na capa da Folha de terça-feira. Depois de resumir
o acontecido e registrar a manifestação do presidente da República,
o texto dizia que o desfecho do sequestro, embora não tivesse agradado
ao governador do Rio, foi considerado por ele “o melhor possível”.
“Fiquei indignada quando li a declaração”, contou a leitora. “E
mais indignada fiquei ao descobrir, na reportagem interna, que o governador
fizera a afirmação antes de saber da morte da refém, o que, convenhamos,
é bas tante diferente.
” Ela fez questão de esclarecer que não é eleitora de Garotinho.
Ainda assim, considera “absurdo” omitir o contexto em que a frase
foi pronunciada. Muitas vezes, pondera ela, quem tem pressa se
fia exclusiva mente na primeira página para tirar suas conclusões.
A leitora está certa. Como de hábito em episódios que monopolizam
a atenção do público, não faltaram declarações infelizes e/ou oportunistas
de autoridades, Garotinho incluído. Isso não autoriza o jornal a contar
da história apenas a parte que lhe parece mais chamativa.
Quem faz sondagens de opinião pergunta o que quer, mas deve estar
preparado para ouvir as respostas. Se o jornal gosta de pesquisas,
tem de ser transparente na hora de apresentar os resultados.
Na quinta-feira, a capa da Folha fez o certo
ao registrar, ao lado da informação de que 54% dos paulistanos reprovaram
a conduta dos policiais que mataram o sequestrador no camburão, o
contraponto de que parcela expressiva dos entrevistados (41%) aprovaram
a ação.
Já a capa do caderno Cotidiano errou ao destacar
o primeiro percentual acima de sua manchete e nem ao menos incluir
o segundo na reportagem. Ele ficou perdido no meio dos gráficos. Ainda
que a reprovação tenha conseguido maioria, é possível argumentar que
a aprovação tão elevada seja até mais notícia. Na mesma linha,
o texto enumerou vários dados menos significativos antes de relatar,
no último parágrafo, o apoio majoritário (67%) à polêmica proposta
de usar o Exército no combate à violência urbana.
Ao fazê-lo, o jornal cuidou de assinalar que o apoio se dá “em
especial entre os que concluíram apenas o 1º grau e entre os que ganham
até dez salários míni mos”.
Dependendo
das convicções de cada um, pode-se lamentar ou festejar esses resultados,
mas não é caso de escondê-los.
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