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São
Paulo, domingo, 23 de julho de 2000
RENATA LO PRETE
Na segunda-feira passada, quando retornei de uma quinzena em
férias, o caso TRT havia mudado de nome.
Ao colocar em dia a leitura do rebatizado caso EJ, encontrei em jornais
e revistas repetidas menções à integridade do presidente da República
e à implausibilidade da idéia de que soubesse das atividades de Eduardo
Jorge.
FHC, li sucessivas vezes, está constrangido diante do elo descoberto
entre o ex-secretário-ge ral da Presidência e o foragido juiz Nicolau
dos Santos Neto.
Tamanha insistência nessa tecla faz pensar em duas coisas. A primeira
é que, na era tucana, a inocência presumida foi substituída por algo
que poderia ser chamado de "inocência por definição".
À diferença do princípio anterior, este não atinge a todos, nem traz
consigo o complemento "até prova em contrário". Os que a imprensa
elege inocentes por definição estão a salvo até mesmo da curiosidade
jornalística.
O refrão da honra presidencial suscita também uma pergunta simples:
e daí? Seja como for, os negócios conduzidos por EJ no Palácio do
Planalto não são "questão individual". Ao contrário do que disse Fernando
Henrique, são problema do governo.
Outros indícios da "operação abafa" colhidos no noticiário:
1. A tese de que as responsabilidades estariam zeradas no que
diz respeito ao TRT, já que o Congresso, PT incluído, também pediu
dinheiro para a "obra superfaturada mais famosa do Brasil", nas palavras
involuntariamente cômicas de uma reportagem de domingo passado.
Tudo a favor de cobrar explicações dos parlamentares, mas isso não
diminui o papel do Executivo, que abriu o cofre.
2. O discurso de reprovação à fita divulgada pela "Isto É",
o grampo que não era grampo.
A suspeita de que a gravação tenha sido armada pelo senador cassado
Luiz Estevão deixa a revista em situação no mínimo desconfortável.
Daí a agir como se esse material fosse o único a indicar a conexão
Nicolau-Estevão-EJ vai enorme distância.
3. O lamento na linha "justo agora que a economia andava bem"
e a advertência sobre suposta ameaça às instituições, esta a mais
antiga das conversas quando se trata de varrer escândalos para debaixo
do tapete.
Os defensores dessa idéia estão em boa companhia. Basta lembrar que,
na véspera da cassação de Estevão, Eduardo Jorge saiu da sombra para
declarar à Folha que a decisão representava "risco para a democracia".
Em meio a tanto diversionismo, a Folha conseguiu fazer uma
diferença importante, apesar da escassez de resultados de suas investigações
até o momento.
Falo primeiro da escassez. Desde 6 de julho, quando a entrevista de
EJ ao "Valor" deu nova dimensão ao caso do tribunal paulista, a Folha
patina. Mais de uma vez teve de recuperar desdobramentos revelados
por concorrentes sem nada lhes acrescentar.
No entanto, cabe ao jornal o mérito de ter desmontado a ficção divulgada
pelo Planalto na tentativa de neutralizar os efeitos da entrevista.
Não foi obra de exclusividade, mas de disposição editorial. Todos
tiveram a informação, destacada apenas nas capas de "Jornal do Brasil",
"Correio Braziliense" e Folha.
E somente esta deu em manchete, com todas as letras, que FHC havia
assinado pedido de suplementação de verbas para a obra do TRT. Assim
ruiu a versão de que o governo tinha passado longe do malfadado prédio.
Esse tipo de cobertura envolve riscos opostos. De um lado, o de acusar
sem fundamento. De outro, o de fazer o jogo oficial. Ainda que ambos
mereçam a mesma atenção, a experiência mostra que o segundo erro é
cometido com mais frequência.
Quem embarcou no faz-de-conta das notas do Planalto se deu mal. Quem
insistir em reportar apenas a roubalheira no tribunal poderá ser atropelado
pela notícia.
*
No ano que vem, quando terminar meu período como ombudsman, terei
de agradecer a algumas pessoas que me ajudaram, com muita generosidade,
a refletir sobre as questões deste trabalho. Como não será possível
agradecer a Aloysio Biondi, deixo registrado o meu .
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