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São
Paulo, domingo, 30 de julho de 2000
RENATA LO PRETE
Na quarta-feira, os jornais no ticiaram a morte de dois
sem-terra. Um dos casos ocorreu no interior do Ceará, onde pistoleiros
atacaram um grupo de acampados. O outro, em Recife, durante confronto
entre manifestantes e policiais militares. Os dois se deram no primeiro
dia do Levante do Campo, protesto organizado pelo MST em 19 Estados.
Na quinta-feira, o segundo caso voltou à capa da Folha
com o seguinte título: "Família de sem- terra assassinado culpa MST".
Na mesma linha, o enunciado interno dizia que os parentes acusam o
movimento de ter "manipulado" José Marlúcio da Silva.
A afirmação se baseou em frase ("Fizeram a cabeça dele") de uma
irmã do lavrador, que ingressou no MST apenas quatro dias antes de
morrer. Apoiou-se também no veto da família a que o velório fosse
realizado no acampamento dos sem-terra.
Três parágrafos adiante da declaração da irmã, a mulher de Silva contava
história diferente. "Ali (entre os militantes) não era o ambiente
dele", dizia. Negava, no entanto, que o marido tivesse aderido ao
movimento sob coação. Em seu entender, Silva foi para o acampamento
por achar "que não poderia perder a oportunidade, porque diziam que
a terra era certa".
A versão da mulher não apare ceu na primeira página. Tampouco
foi destacada no sobretítulo (aquela linha de texto que complementa
as manchetes) in terno.
Dos principais diários, apenas a Folha
considerou a teoria da manipulação assunto de capa. "O Globo"
abriu seu relato da mesma maneira, mas deixou-o no miolo do jornal.
"O Estado" relatou a controvérsia familiar em sua reporta gem,
mas depois de informar em que pé estavam as investigações sobre a
autoria do disparo (co mo de hábito nesses episódios, estavam no
estágio em que a PM sustenta não ter atirado em ninguém).
Não se trata de descartar o protesto dos parentes, sem dúvida merecedor
de registro. Os problemas são dois: o lugar que foi dado a essa
questão na hierar quia da notícia e o desprezo pelo elemento contraditório.
Como observou um dos leitores que me procuraram para criticar
a conduta da Folha, discutir os métodos de
recrutamento do MST não é mais importante, neste caso, do que estabelecer
quem matou o sem-terra.
Além de inverter a ordem das coisas, o jornal deixou escondida a versão
que esfriava seu título. Por algum motivo, decidiu-se que a palavra
da irmã vale mais que a da mulher do morto.
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