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São
Paulo, domingo, 20 de agosto de 2000
RENATA LO PRETE
A 42 dias das eleições municipais, o que se lê na Folha
sobre o assunto pode ser dividido em quatro itens:
a) pesquisas de intenção de voto;
b) relato do que vai aparecer no horário político da TV;
c) relato do que já apareceu no horário político da TV;
d) pesquisas para saber o que as pessoas acham do horário político
na TV.
Mesclado aos itens "b" e "c" costuma vir o registro das atividades
de rua dos candidatos. Em resumo, é isso.
Título principal de quarta-feira passada: "Eleição começa a ser decidida
hoje em série de 38 programas de TV até setembro". Se a função do
enunciado é comunicar o que vem a seguir, não se pode reclamar deste,
tão longo e desprovido de novidade quanto o conjunto da edição.
Esta não é a primeira eleição em que a TV ocupa lugar de destaque
na cobertura. Mas, a julgar pelos últimos dias, parece que se passou
do estágio de pinçar notícia e comentar os programas para o de simplesmente
contar o que eles mostram, como é feito com os capítulos de novelas
no TV Folha.
A diferença é que no caderno dominical um parágrafo tem de dar conta
de todos os romances, traições e doenças da semana. Já o Folha
Eleições usa três textos para dizer que o combate à corrupção
é o tema prioritário de Marta Suplicy e outros três para constatar
que o medo da violência é a tônica do programa de Paulo Maluf.
Sem dúvida é necessário acompanhar o que se passa na televisão, mas
ninguém precisa do jornal para saber que o horário eleitoral é "considerado
a única esperança de viabilizar as candidaturas de Geraldo Alckmin
e Romeu Tuma", outro bordão do noticiário. Descontada a eliminação
física dos favoritos, que outra esperança poderia haver?
À dependência da TV se soma a verificada em relação às pesquisas.
E, como vai longe o tempo em que somente a Folha as publicava
com regularidade, intenção de voto não é mais o bastante para se diferenciar
dos concorrentes. Agora o jornal também considera notícia de peso
as opiniões de eleitores sobre a propaganda na TV.
Título principal de quinta-feira: "Programa de Alckmin é o mais aceito,
diz pesquisa; Marta e Tuma vêm em seguida". Baseada exclusivamente
no primeiro dia de horário eleitoral, a conclusão é tão frágil _e
tão gratuitamente simpática a um dos candidatos_ que na chamada de
capa se optou por uma solução mista: "Alckmin, Marta e Tuma agradam
mais na TV". E daí?
Encantado feito criança diante de um novo pokémon, o jornal explicou
que na primeira etapa "os entrevistados usam um aparelho para manifestar
agrado ou desagrado com o que aparece" na tela. Na segunda, com um
moderador, o grupo discute o que assistiu.
Apesar do esforço didático, a Folha não informou quem fez o
levantamento, nem quantas pessoas foram ouvidas, omissão observada
por mim na crítica interna. O esclarecimento veio no dia seguinte:
60 entrevistados pelos institutos Interativa e ComSenso, sob supervisão
do Datafolha.
Veio também, no meio de um texto, o alerta de que o universo de participantes
"não representa o total de eleitores da cidade", e que portanto "a
leitura dos resultados tem de ser cautelosa".
A ressalva não impediu o jornal de dar mais uma cabeça de página,
com enunciado quase gêmeo ("Alckmin é bem-aceito após estréia na TV"),
à mesma pesquisa de um dia de horário eleitoral, desta vez para registrar
as declarações dos entrevistados na segunda etapa (na quinta-feira
havia saído o número de pontos obtidos pelos candidatos no aparelho).
O problema não é utilizar esse gênero de informação em reportagens,
mas sim dar tamanho destaque a algo que permite, na melhor das hipóteses,
"identificar tendências de opinião nos grupos sociais que os entrevistados
representam".
Não é preciso ir longe para descobrir que a visibilidade exagerada
logo se transforma em coisa pior. No final da tarde de sexta-feira,
o site de eleições da Folha Online trazia, sob uma foto de
Alckmin, o título "O melhor na TV" e a informação de que o resultado
fora obtido "em pesquisa realizada pelo Datafolha".
Tudo somado, não é de estranhar que leitores tenham me procurado para
acusar o jornal de favorecer o candidato tucano.
Talvez eu decepcione partidários dessa tese, mas a questão me parece
ser de outra natureza. Falta rumo na cobertura. Sem ele, o acessório
é tratado como essencial e acaba produzindo a sensação descrita pelos
leitores.
A encruzilhada do noticiário não vem de hoje nem é gratuita. Está
ligada a transformações nas próprias campanhas eleitorais, cada vez
mais formatadas a partir de pesquisas e em função da TV.
É natural que a Folha responda a essa realidade, mas isso não
é o mesmo que abdicar de ter pauta própria. No momento, cabe perguntar
se o jornal, além de publicar resultado de pesquisas e monitorar a
televisão, tem algo a oferecer ao leitor.
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