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São
Paulo, domingo, 3 de setembro de 2000
RENATA
LO PRETE
O mundo do futebol lembra um pouco a prefeitura paulistana.
Paira sobre ambos a convicção geral de que funcionam na base do “por
fora”, da ilicitude. O problema é que entre estar convencido e dispor
de testemunha vai uma distância. Daí a ter prova documental, outra.
As recentes denúncias contra Wanderley Luxemburgo podem ser resumidas
em dois pontos.
O primeiro é que o técnico da seleção brasileira de futebol sonegou
pelo menos R$ 1,3 milhão de Imposto de Renda nos últimos seis anos.
Disso a Receita Federal não tem dúvida.
Apesar do vulto da cifra e da importância do cargo ocupado pelo sonegador,
o fato não parece causar grande comoção. Com poucas exceções, é tratado
como algo menos grave do que perder para Chile ou Paraguai.
O segundo ponto é a acusação, feita por uma ex-assessora de Luxemburgo,
de que este fez do futebol seu balcão de negócios, ganhando dinheiro
com a valorização do passe e a venda de jogadores sob seu comando.
A esse respeito existe o depoimento de Renata Alves, que diz ser
também ex-namorada do treinador, o que ele nega. Seja como for, ela
desempenha o papel de Nicéa Pitta neste caso, falando cobras e lagartos
de Luxemburgo. Não obstante o destaque dado a suas declarações,
por enquanto não há elemento que as comprove.
Na sexta-feira, a Folha acrescentou
a esse quadro a descrição de uma ciranda.
Sua reportagem mostrou que Luxemburgo é sócio de um empresário (Sérgio
Malucelli) que preside um clube da segunda divisão do Paraná (Iraty).
O clube “mantém relações de parceria com os principais agentes de
jogadores do país. E esses agentes detêm, sob contrato, algumas estrelas
da seleção brasileira, comandada pelo técnico”.
Interessante, sem dúvida, pelo encaixe de peças. Mas a manchete
do caderno Esporte (“O mundo paralelo de
Luxemburgo”) padecia do mal que se vê em boa parte dos títulos da
imprensa nesta cobertura: dava a impressão de algo maior do que as
informações disponíveis permitem concluir.
Que “mundo paralelo”?, perguntei na crítica interna. Se é a relação
de Luxemburgo com Sérgio Malucelli, cabe ponderar que esta jamais
foi negada pelo técnico, e que a reportagem da Folha,
embora reveladora de detalhes dessa e de outras conexões, não chega
a mostrar irregularidade nos negócios da dupla.
O que se tem, até o momento, foi dito no título da capa do jornal,
menos colorido: a sociedade entrou na mira da Receita.
De maneira geral, a Folha tem se saído bem
desde que o caso veio à tona, há quase duas semanas, no jornal “O
Dia”.
Não fez nada parecido com uma reportagem do “Estado” que simplesmente
somou os valores de transações com jogadores da seleção na era Luxemburgo
e, em exercício de ilação, apresentou o número como indício contra
ele.
Não se trata de desestimular a apuração das denúncias da ex-assessora,
como pretende o presidente da CBF. “Quando o Brasil ganhar dois jogos
nas eliminatórias da Copa do Mundo, o assunto morre”, previu Ricardo
Teixeira na reportagem da ciranda.
Vamos conferir depois da partida de hoje à tarde contra a Bolívia.
Tomara que a disposição da Folha
independa do resultado, e que o jornal não deixe seu trabalho de investigação
ser contaminado pelo mais popular dos passatempos nacionais: malhar
o técnico de uma seleção que vai mal das pernas.
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