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São
Paulo, domingo, 10 de setembro de 2000
RENATA
LO PRETE
"Kuerten abre mão do ouro por dinheiro."
Assim a Folha resumiu, na manchete de seu caderno de esportes
de quarta-feira, a notícia de que o principal atleta do país
havia desistido de ir aos Jogos de Sydney, na ausência de acordo
entre seu patrocinador e o Comitê Olímpico Brasileiro
quanto à logomarca que seria exibida pelo tenista na competição.
Diante da crueza condenatória do título, não
foi surpresa encontrar a caixa de correspondência fornida de
protestos. Às dezenas.
"Sensacionalismo barato", escreveu um leitor. "Brincadeira
de mau gosto", disse outro. "Chega de demagogia", pediu
um terceiro. Outra identificou no enunciado a atração
que jornalistas sentem por jogos de palavras ("ouro por dinheiro"),
ainda que, para utilizá-los, às vezes seja preciso forçar
a mão.
Não é de hoje que leitores enxergam má vontade
da Folha para com Gustavo Kuerten, tema recorrente nas mensagens
à ombudsman.
Algumas, embora legítimas como expressão do sentimento
do torcedor, carecem de fundamento do ponto de vista jornalístico.
Há poucos dias, um leitor apontava, como exemplo de perseguição,
a visibilidade dada à eliminação do brasileiro,
por um adversário obscuro, na primeira rodada do Aberto dos
EUA.
O destaque (reportagem na capa de Esporte não foi maior
do que o conferido às conquistas de Kuerten (basta lembrar
da extensa cobertura feita pelo caderno, uma semana antes, para celebrar
o título obtido em Indianápolis, o primeiro fora do
saibro).
A chamada de primeira página existiu na Folha, nos concorrentes
locais e em jornais estrangeiros.
Se notícia é a reversão da expectativa, fazia
todo sentido chamar atenção para esse resultado. Número
1, em excelente fase, o brasileiro era considerado um dos favoritos
no torneio em Nova York.
No entanto, seria um equívoco atribuir todas as críticas
à indisposição do torcedor para conviver com
reveses de seus ídolos.
Ainda sobre o Aberto dos EUA, leitores estranharam a manchete da eliminação:
"100ª derrota, a pior do ano". "Dá a entender
que Kuerten tem uma trajetória marcada por percalços",
observou um deles.
Outro considerou o enunciado carente de sentido, "principalmente
para quem entende alguma coisa de hipóteses ou de tênis,
um jogo em que não há empate".
De fato, o número transmite birra, embora tenha um significado
(segundo o cálculo apresentado, a carreira do brasileiro seria
a mais oscilante da atual elite do tênis).
No caso do título de quarta-feira, os leitores estão
cobertos de razão. Para começar, Kuerten disse ter tomado
a decisão por lealdade à Diadora, sua patrocinadora
desde o tempo em que ninguém sabia quem ele era e o que viria
a ser.
Pode-se encarar a explicação com simpatia, indiferença
ou mesmo ceticismo (na sexta-feira, ao relatar o entendimento que
permitiu a ida do tenista a Sydney, a Folha achou por bem se
referir à lealdade dele entre aspas).
Seja qual for a percepção de cada um, a idéia
de que Kuerten desistiu para não perder dinheiro é no
mínimo questionável.
O que aconteceria se ele tivesse rompido com a Diadora para competir
vestido de Olympikus, a patrocinadora da delegação brasileira?
No atual estágio de sua carreira, no dia seguinte estaria sob
nova marca, ganhando mais.
Suponhamos que o enunciado tenha pretendido mostrar, com o uso da
palavra "dinheiro", qual é a regra do jogo no mundo
do esporte de ponta. O raciocínio é correto. Sem dúvida
menos mistificador do que "O patriotismo fala mais alto",
um dos títulos do "Estado" de sexta-feira.
O resultado, entretanto, é que a manchete espelhou a versão
do COB. "Lamento ele ter se curvado a uma empresa estrangeira",
dizia na reportagem o presidente do comitê, Carlos Arthur Nuzman
(a Diadora é italiana).
"Não vou admitir que coloquem a culpa no COB ou na Olympikus."
A Folha também não. De saída, tratou de
colocar a culpa em Gustavo Kuerten.
Não foi preciso fazer pesquisa para saber de que lado ficou
o público. Nuzman logo entendeu que o ônus seria todo
seu.
No movimento de recuo, deu-se o segundo tropeço do jornal.
Na quinta-feira, à diferença do noticiário dos
concorrentes, o seu não dava sinal do acordo iminente.
De volta à queixa crônica dos leitores ("a Folha
pega no pé"), cabe notar que esse é um traço
da personalidade do jornal, pouco inclinado à afetividade que
marca a relação do público com Kuerten. Não
por acaso, é o único que não o chama de Guga.
Caráter provocador não é defeito em um jornal,
pelo contrário. O problema é olhar apenas para o próprio
umbigo e achar que qualquer provocação se justifica.
Mais do que ao tomar partido, a manchete errou ao passar totalmente
da medida em agressividade. Seu objetivo era interpretar, mas ela
apenas ofende. O personagem da notícia e o leitor.
Uma boa e uma má notícia para quem leu a Folha
de quarta-feira na Internet.
A boa é que esse leitor foi poupado da violenta manchete de
Esporte. Ela não constou da versão eletrônica.
A má é que não havia uma linha sobre a desistência
de Kuerten no jornal transposto para a tela.
Por limitações de ordem técnica que a Folha
ainda não conseguiu superar, ela costuma mandar para a rede
sua edição que fecha mais cedo. Quando a notícia
chega tarde, como ocorreu nesse caso, o resultado é desastroso.
Por certo havia informação disponível no noticiário
em tempo real produzido pela Folha Online. Mas quem buscou
o jornal propriamente dito encontrou, na tela, um produto mais frio
que o papel.
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