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São Paulo, domingo, 17 de setembro de 2000


RENATA LO PRETE

“Rico, Tatuapé vira Moema da zona leste.” Na primeira leitura, a manchete de Cotidiano de sábado, 9 de setembro, impressionou-me apenas por ser velha.

Seja lá o que o Tatuapé tenha virado, a transformação já foi objeto de um sem número de reportagens, algumas publicadas na própria Folha.

Pobre, a mais recente limitou-se a repetir que os empresários comemoram o poder aquisitivo dos moradores, e que estes comemoram seus novos apartamentos e as lojas de grife disponíveis na vizinhança. Ou seja, uma iniciativa editorial que teve como único efeito a alegria dos vendedores de imóveis.

Para ilustrar o quadro de afluência, o jornal se deu por satisfeito com dois personagens: a administradora de uma empresa de ar-condicionado e Manoel Jorge Gonçalves, proprietário da Ação Imóveis.

Como cresci na zona norte e hoje vivo na oeste, o nome não me disse nada. Precisei do alerta de dois moradores da zona leste para descobrir que a ausência de novidade era o menor dos problemas da reportagem. No generoso espaço concedido a Gonçalves, a Folha simplesmente omitiu que ele é candidato a vereador.

Pelos leitores _um do Tatuapé e outro da vizinha Água Rasa_ fiquei sabendo que o “Mané da Ação”, como é conhecido, tentou se eleger deputado em 1998 pelo Prona. Não conseguiu. Agora busca vaga na Câmara pelo PPB.

Sua propaganda, com o nome do candidato sempre associado ao da imobiliária, está espalhada por toda a região.

Na Folha, Gonçalves foi apresentado apenas como o dono “da imobiliária mais influente do Tatuapé, com 30 anos no mercado”.

Falou sobre a expansão dos negócios no local. Ganhou foto e perfil. “Filho de imigrantes portugueses”, ele “fez fortuna e quer continuar no bairro”.

Graças à boa memória de um dos leitores, podemos constatar, na última das páginas reproduzidas ao lado, que o jornal já tinha registrado semelhante declaração de fidelidade às raízes.

Foi em 1991, em reportagem cujo título anunciou que o Jardim Anália Franco havia se tornado o “Morumbi da zona leste” (o Anália Franco é a porção mais rica do Tatuapé).

Logo abaixo vinha o perfil de um morador emergente: Vicente Viscome. “Nasci e vou morrer aqui”, dizia o dono de revendas de carros, fotografado sorridente na sacada de um recém-adquirido apartamento de 500 m2.

No ano seguinte, ele se candidatou a vereador pela primeira vez. O resto é história. Cassado em 1999, no rastro das investigações da máfia da propina, Viscome hoje habita uma cela menor do que os dormitórios de seu imóvel no Anália Franco.

De volta à reportagem recente, como a Folha pôde incorrer em forma tão tosca de promoção? “Por pura ingenuidade dos profissionais envolvidos na operação”, afirma Nilson de Oliveira, editor de Cotidiano.

“Responsáveis pela produção e edição do material sabiam que Manoel Gonçalves é candidato, mas avaliaram que a informação não era relevante, já que o empresário é, como atestam todas as fontes consultadas, personagem importante a ser ouvido sobre o boom econômico do Tatuapé.” Conclusão do editor: “O erro é incontestável”.

Qual dos dois erros? O esclarecimento trata apenas da omissão, como se esta tivesse sido a única falha. Não é verdade. O erro original foi ter utilizado Gonçalves, em plena campanha, como personagem desse gênero de história.

Há pouco a discutir neste caso, tamanha a evidência do absurdo cometido. É difícil entender que jornalistas da Folha tenham considerado a condição de candidato informação irrelevante. E que agora achem que o problema poderia ter sido resolvido com simples aviso, como se fosse normal entregar ao leitor, sob aparência de notícia, uma extensão do horário eleitoral gratuito.


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