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São
Paulo, domingo, 24 de setembro de 2000
RENATA
LO PRETE
Da última vez em que uma manchete errada foi tema desta coluna,
a pimenta ardeu nos olhos dos outros. O caso relatado hoje ocorreu
na Folha. À diferença do que se deu no Correio
Braziliense quase dois meses atrás, quando houve retratação
imediata, aqui o engano ultrapassou 500 dias de vida.
Trata-se do título principal da edição de 8 de
maio do ano passado: Malan sabia da ajuda ao Marka, diz PF.
A ajuda, para quem não se lembra, é o R$
1,6 bilhão torrado pelo Banco Central para socorrer os pequenos
Marka e FonteCindam da desvalorização do real, em janeiro
de 1999.
A Polícia Federal está convencida de que o ministro
da Fazenda sabia da operação na época em que
ela foi realizada, afirmou a reportagem que deu origem à
manchete.
Segundo a Folha apurou, a convicção está
baseada em depoimentos e documentos que atestam a presença
de Pedro Malan nas dependências do BC durante parte do período
em que a diretoria discutiu o assunto.
Nos dias que se seguiram, o jornal publicou duas contestações
do ministro.
A primeira, em forma de notícia e sem destaque. Ele reiterava
que na visita ao Banco Central, amplamente conhecida e divulgada
à época, participou de reunião em que se
discutiu apenas a mudança do regime cambial, sem referências
a Marka e FonteCindam.
Depois veio uma carta no Painel do Leitor. Nela, a manchete
foi classificada como dupla mentira. Nem eu sabia
da ajuda, nem a Polícia Federal confirma ter dito ou chegado
à conclusão que a Folha lhe atribuiu.
Para entender o último trecho da frase: em resposta a uma solicitação
de esclarecimentos de Malan, o Ministério da Justiça,
ao qual a PF está subordinada, informara inexistir, nos depoimentos,
alusão a que ele tivesse conhecimento prévio da operação
investigada.
O ministro da Fazenda pedia à Folha que se mostrasse
coerente com a transparência defendida em sua linha editorial,
corrigindo a manchete.
O jornal manteve a versão publicada.A reportagem baseou-se
em informações obtidas junto a três fontes da
Polícia Federal, todas envolvidas, direta e indiretamente,
nas investigações, dizia a Nota da Redação.
Procuradas pelo jornal, as mesmas fontes reafirmaram as informações.
Na semana passada, Malan retomou o episódio em carta à
ombudsman. Esperei todo esse tempo tanto pela conclusão
das investigações quanto por um gesto de reconhecimento
e de decência da Folha.
Ele criticou o jornal por noticiar o fim do inquérito sem esclarecer
que apostara tudo no resultado contrário.
De fato, embora editada como segundo destaque da capa (Ação
de Malan não é provada), a reportagem de 8 de
junho deste ano foi escrita como se a anterior não tivesse
existido.
Alguém poderia imaginar que não me deveria ser
conveniente voltar, tanto tempo depois, a um assunto que me causou
tanto desgaste, declarou o ministro.Não tenho problemas
com isso. O que a mim causa desgaste não é o assunto.
É a injustiça de uma acusação jamais comprovada.
É confortável para o jornalista pensar que na definição
de manchete errada só se encaixaria o que aconteceu no Correio:
uma fantasia sem intermediários, por assim dizer.
O jornal afirma que algo existe (no caso, um negócio). Uma
vez demonstrado que não existe, a única saída
é corrigir.
Quando a informação é atribuída a terceiros,
sempre há um meio de escapar: quem disse foi a Polícia
Federal, não a Folha.
Quem na Polícia Federal? O jornal tem o direito de manter suas
fontes sob sigilo. Mas o leitor tem o direito de duvidar que a avaliação
dos três entrevistados pudesse ser tomada como diagnóstico
da corporação.
O diz não elimina a responsabilidade do jornal
por uma informação colocada no topo do noticiário,
em especial quando sua origem não é identificada.
Outra maneira de fugir do problema é apelar à opinião.
Como Malan poderia não saber? É o ministro. Esteve no
BC quando lá se analisava o socorro. Nesse mesmo dia, fez refeições
com o presidente do banco. E, se não soube, sendo o ministro,
pior ainda.
Enveredar por esse caminho é achar que manchetes podem sobreviver
sem fatos, sustentadas apenas pelas convicções de cada
um.
Para constatar o embaraço da Folha, nada melhor do que
descer a detalhes de seu vocabulário.
Na reportagem do ano passado, a PF estava convencida do
envolvimento de Malan. Na deste ano, a certeza deu lugar à
suspeita de que ele tivera conhecimento prévio
do socorro.
O primeiro texto falava em documentos e depoimentos que
dariam amparo à acusação. No mais recente, a
palavra documentos não aparece uma única
vez.
A nota do Ministério da Justiça parece fazer parte
de uma operação do governo para abafar o caso,
dizia a réplica à carta publicada no Painel do
Leitor.
Como parece? A seguir essa linha, pode-se alegar também
que a Nota da Redação parece fazer parte
de uma operação do jornal para abafar seu equívoco.
Na sexta-feira, o diretor de Redação transmitiu à
ombudsman a posição que a Folha tem hoje sobre
o episódio. O jornal errou ao confiar em fontes cujas
informações não se comprovaram, afirmou
Otavio Frias Filho.
Quase toda manchete envolve alguma dose de aposta. Às vezes,
uma dose elevada. É impossível estabelecer regra única.
Fatores que mudam de um caso para outro ajudam a decidir se convém
ou não bancar o risco.
Uma coisa é certa. Se não há elemento consistente
para contrapor a um desmentido, é melhor reconhecer o erro
sem rodeios. Pior do que perder a aposta é perder a confiança
do público se agarrando a uma reportagem sem estofo.
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