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São
Paulo, domingo, 15 de outubro de 2000
RENATA
LO PRETE
Na
quinta-feira, uma nota levada ao ar pela Folha Online pouco
depois que helicópteros israelenses bombardearam alvos em Gaza
e na Cisjordânia registrava que não havia, àquela
altura, "informações sobre danos ou mortes".
A referência curta, quase uma praxe nos primeiros boletins desse
gênero de notícia, foi suficiente para incomodar um leitor.
Como não existiam informações, perguntou ele,
"se horas antes palestinos haviam retirado de uma delegacia e
linchado dois soldados israelenses? Essas mortes não contam?"
A mensagem me fez lembrar de outra, recebida no início da semana.
O leitor pedia que a Folha, "em nome do jornalismo apartidário,
pluralista e crítico que defende", retificasse a chamada
"Hezbollah sequestra três soldados de Israel", publicada
na capa de domingo passado.
Motivo: ela afirmava que o sequestro, cometido pelo grupo extremista
islâmico, "foi o primeiro incidente grave desde maio, quando
Israel retirou suas tropas do sul do Líbano".
"Mentira", disse o leitor. "Se bem me lembro, o assassinato
de dezenas de civis palestinos pelos soldados israelenses, nos últimos
dias, foi de fato o primeiro incidente grave desde maio".
Ainda que tenha faltado precisão tanto ao texto da Internet
quanto ao da capa, entendo que o redator do primeiro se referia a
danos ou mortes provocados pelos bombardeios, assim como quem escreveu
o segundo falava no primeiro incidente entre Israel e o Hezbollah
desde a retirada das tropas.
Semelhantes na forma, opostos no viés que enxergam no noticiário,
os dois protestos ilustram o grau de suscetibilidade com que o jornal
lida ao tratar do conflito no Oriente Médio.
A cobertura da atual onda de violência na região motiva
manifestações de leitores que atribuem à Folha
orientação pró-Israel (ou antipalestinos, como
se queira) e de outros que estão convencidos do contrário.
Salvo um ou outro deslize pontual, eu não havia encontrado
motivo para acusar o jornal de falta de equilíbrio até
dar com a Primeira Página de sexta-feira.
"Israel lança seu maior ataque aos palestinos", afirmou
a manchete. Não constou do enunciado, nem do sobretítulo
que o complementou, o fato de que o ataque foi resposta ao linchamento.
Optou-se por dar no alto uma foto do bombardeio, deixando abaixo as
da ação contra os soldados. Penso que o inverso teria
sido melhor, tanto para seguir a ordem dos acontecimentos como pelo
critério da força das imagens.
Mas não veria problema maior na escolha do jornal se as legendas
tivessem amarrado bem o quadro, deixando claro o que veio antes. O
resultado, no entanto, ficou confuso.
Para completar, foi deixada em página interna, escondida dentro
de uma arte, a imagem do soldado sendo atirado pela janela da delegacia,
tão ou mais dramática que a do palestino exibindo as
mãos sujas de sangue (à esquerda na capa).
Se é verdade que as fotos e a manchete costumam ter primazia
na atenção do leitor, então a capa de sexta deixou
em segundo plano itens importantes para o entendimento da notícia.
Ainda que o efeito não tenha sido deliberado, indica o quanto
é preciso ter cuidado nessa cobertura.
Cuidado não para agradar a todos, o que, além de não
ser função do jornal, é sabidamente inviável.
Mas para oferecer sempre a informação mais completa
possível. Parece simples. Nunca é assim quando o assunto
é Oriente Médio.
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