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São
Paulo, domingo, 05 de novembro de 2000
RENATA
LO PRETE
Sob
o mais longo ciclo de crescimento da história de seu país,
os norte-americanos irão às urnas depois de amanhã
ameaçando tirar da Casa Branca o partido que a ocupou durante
o período de prosperidade, para lá instalar o filho
do homem que Bill Clinton derrotou em 1992.
Ainda que a possibilidade não se concretize, pesquisas indicam
que o resultado será o mais apertado desde 1960, quando Kennedy
bateu Nixon por pouco mais de cem mil votos.
Somadas a peculiaridade dinástica da disputa, a imprevisibilidade
do quadro e a influência da única superpotência
sobre quase tudo à nossa volta, o que se tem é notícia
repleta de aspectos a explorar.
No entanto, basta ir aos arquivos para verificar que a Folha
dispensou à atual campanha menos atenção que
à de quatro anos atrás, quando o segundo mandato de
Clinton era certeza. A informação diminuiu em quantidade
e qualidade.
Nos últimos meses, o jornal colecionou omissões em seu
noticiário sobre a eleição nos EUA. O conjunto
mostra como é possível acompanhar mal um assunto mesmo
publicando algo acerca dele quase todos os dias.
Para falar do básico, até ontem a Folha não
havia resumido o que se pode esperar de Albert Gore e de George W.
Bush em questões como educação, saúde
e mais relevante ao Brasil acordos internacionais de comércio.
Trouxe apenas referências esparsas no meio dos textos.
Igualmente subestimada foi a informação de que também
o Congresso pode mudar de mãos. Assim como os democratas correm
risco de perder a Presidência, há chance de os republicanos
ficarem sem o controle da Câmara. Em tese, a maioria democrata
deixaria a Casa mais protecionista de novo, algo com potenciais consequências
para países como o Brasil.
Sempre tão interessado em pesquisas, neste caso o jornal atravessou
semanas de previsões desencontradas e de empate técnico
(com Bush em ligeira vantagem na reta final) sem fazer uma reportagem
que analisasse os números e mostrasse o complicador representado,
na metodologia dos levantamentos, pelo voto facultativo.
Descontada a tradução de um artigo do New York
Times, limitou-se a registrar a esmo dados de diferentes institutos.
Outra maneira de deixar o leitor no escuro é atirar-lhe informação
sem contexto que permita seu correto entendimento.
É o que o jornal faz quando dedica quase uma página
a críticas de Gore a filmes violentos e seus efeitos sobre
as crianças sem mostrar o quanto há de jogo de cena
no gesto do vice de Clinton, dada a estreita ligação
entre o Partido Democrata e a indústria do entretenimento.
Ou quando destaca em título que o Washington Post
pede votos para Gore e o NYT faz campanha
para a candidata ao Senado Hillary Clinton sem esclarecer que manifestar
apoio em editorial atitude menos engajada do que sugerem as expressões
usadas é rotina na imprensa dos EUA.
Bush criticou o aborto, afirmou reportagem sobre o primeiro
dos três debates entre ele e Gore. Certo, mas faltou explicar
que, de olho no voto das mulheres indecisas, o governador do Texas
abrandou na TV (abortos precisam ser mais raros na América)
sua posição histórica a respeito do tema (abortos
deveriam ser ilegais).
Leitura obtusa das pesquisas levou a Folha a anunciar que,
de acordo com elas, Gore havia vencido o primeiro debate, conclusão
desmentida por evidências disponíveis na ocasião
e por acontecimentos que se seguiram.
A série de omissões e distorções dá
idéia de que o jornal teria aderido à tese de que tanto
faz quem for eleito nos
Como observou Boris Fausto em artigo recente na Folha, a apreciação
só se justifica se pensarmos em nítidos cortes
ideológicos. Por outros critérios, há diferenças
sensíveis entre os candidatos. Se algumas interessam
apenas aos norte-americanos, outras dizem respeito a todo o mundo,
escreveu o historiador.
A tarefa do jornal é ajudar o leitor a identificar as diferenças
por trás da semelhança aparente, bem como as semelhanças
que a retórica de campanha busca transformar em diferença.
Em tempo: a ombudsman não tem acesso prévio às
reportagens do jornal. É possível que, páginas
adiante deste balanço, a antevéspera da eleição
seja marcada por uma boa cobertura. Se for assim, tanto melhor. Mas
o que foi feito até agora não satisfaz.
Leia mais:
O número da discórdia
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