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São
Paulo, domingo, 12 de novembro de 2000
RENATA
LO PRETE
Em
maio, a Folha atirou
a pedra. Acusou o MST de desviar recursos da reforma agrária ao recolher
3% dos créditos do governo federal para assentados.
Na semana passada, virou vidraça. O movimento acusou o Incra de
desviar recursos para subsidiar a elaboração dessa reportagem.
Entidade ligada aos sem-terra ingressou na Procuradoria da República,
em Curitiba, com representação em que aponta o fornecimento de carro
e motorista do órgão para a viagem de repórter e fotógrafo pelo interior
do Paraná.
Para o MST, a utilização do transporte oficial indica que a Folha
foi instrumento de “ação orquestrada para a criminalização do movimento”.
Na edição de sexta-feira, ao relatar o caso, o jornal reconheceu o
uso do carro e dos serviços do motorista. Explicou tê-lo feito sob
recomendação do Incra, por questão de segurança. Disse que custeou
alimentação e hospedagem do profissional.
Afirmou ainda ter tentado pagar o combustível e as diárias do
motorista, mas que seu pedido foi recusado sob a alegação de que criaria
dificuldades contábeis para o órgão.
Nada disso havia sido informado antes ao leitor.
Em nota publicada ao final da matéria de sexta-feira, a Folha
qualificou seu comportamento como “absolutamente correto”.
Em texto à parte, o autor da reportagem de maio comentou o incidente
em tom irônico. Josias de Souza, diretor da Sucursal de Brasília,
disse ter se surpreendido ao descobrir, pelo MST, que seu preço era
“uma viagem na Parati branca do Incra”.
Referia-se ao fato de que a despesa mencionada na representação não
ultrapassou a casa das centenas de reais.
Abaixo, trechos de algumas das mensagens que recebi.
“Como o jornal pode ser isento utilizando meios cedidos por
quem tem conhecidos interesses em relação à parte acusada?”
“Por que a Folha não esclareceu
as circunstâncias em que foi realizada a reportagem?”
“Discutir o preço é tática diversionista.”
“Quer dizer que valor pequeno pode? Não é questão de princípio?”
“O que diz o ‘Manual da Redação’ a esse respeito?”
O “Manual” prevê a possibilidade de utilizar meios que não os
do próprio jornal, mas contrasta com o “absolutamente correto” da
Nota da Redação ao determinar que se “informe com clareza” sempre
que o jornalista tiver despesas pagas por outra fonte.
O jornal pode, sim, ser isento em situação como essa. Por si só, ela
não desqualifica o conteúdo de uma reportagem, ao contrário do que
sugere o MST.
Mas, se julgou o suporte do Incra necessário para
executar a pauta, a Folha deveria
ter avisado o leitor. Neste caso, a questão obviamente não
é o valor da despesa. O fato de esta ter sido modesta não anula o
princípio nem o reduz a mera formalidade.
Ele merecia especial atenção em uma reportagem que, não obstante
seu propósito informativo, encaixou-se à perfeição no interesse do
patrocinador do traslado.
No texto de sexta-feira, o próprio superintendente do Incra no Paraná
se encarregou de lembrar que a matéria “possibilitou colocar 1.300
técnicos (acusados pelo jornal de irregularidades) para fora dos assentamentos”.
Embora publicada num domingo, a reportagem provocou imediato anúncio
do governo de que os créditos estavam suspensos para apuração da denúncia.
Manchete do dia seguinte, a pronta reação fez com que leitores falassem
em operação casada.
Não é recomendável ficar devendo transparência quando se acusa
os outros de falta dela.
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