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São
Paulo, domingo, 19 de novembro de 2000
RENATA
LO PRETE
Leitora
da Folha há anos, Luzia Emiko Marimatsu descobriu recentemente
o que é ser atingida por uma reportagem do jornal. Descobriu
da pior maneira possível, pois a história envolveu seus
filhos.
A garota tem 14 anos. O garoto, 16. Foram apresentados como personagens
do mundinho sansei, capa do Folhateen de 6 de novembro.
Segundo o caderno, adolescentes da terceira geração
de imigrantes japoneses em São Paulo andam em grupos
fechados e não namoram brasileiros.
À filha de Luzia, primeira dos entrevistados a surgir no texto,
foi atribuída a seguinte declaração: Na
nossa turma, a maioria é oriental. Somos fechados. A gente
não tem nada contra os gaijins, mas é uma
questão de afinidade e identificação. Tem alguma
coisa que não se encaixa direito.
Parágrafos adiante, depois de outros depoimentos na mesma linha,
a reportagem informou que, apesar de não falar japonês,
a maioria costuma entender o que os avós ou os pais falam
no idioma.
Em seguida veio a declaração atribuída ao filho
de Luzia: Só sei o básico: os palavrões.
As frases de ambos foram repetidas, em letras maiores, no alto de
uma das páginas ocupadas pela matéria.
Luzia não reconheceu os filhos no que leu. Recusa-se a aceitar
o argumento-padrão de jornalistas nessas situações:
o de que adolescentes nem sempre teriam coragem de assumir, diante
dos pais, o que dizem longe deles. Conheço meus filhos
o suficiente para saber que jamais falariam o que foi publicado,
escreveu ela em carta dirigida à Redação e a
mim.
Até porque em nossa família existe avançado
grau de integração entre descendentes e não-descendentes
de japoneses. Minha irmã, meu cunhado, primos e uma infinidade
de amigos se relacionam, são casados ou namoram com não-descendentes,
continuou. Somos tão brasileiros quanto o repórter
da Folha.
Baseada na reconstituição a que se dedicou depois de
ler a reportagem, Luzia está convencida de duas coisas:
a) distorcida ou não, a frase colocada na boca de sua
filha foi dita por outra entrevistada;
b) a frase associada a seu filho jamais existiu tal como registrada
no papel. Em resposta à questão Você fala
palavrões em japonês?, ele teria se limitado a
dizer sei um. Instado a mencioná-lo, teria encerrado
o assunto com um não, tenho vergonha.
Além dos dois questionamentos pontuais, Luzia critica a conduta
do repórter (de posse de nosso telefone, em nenhum momento
entrou em contato comigo ou com meu marido) e o resultado geral
da matéria, a seu ver pejorativo e capaz de estimular perseguição
aos adolescentes entrevistados.
É um texto que não acrescentou nada aos leitores,
concluiu na carta, mas que teve a propriedade de gerar um tremendo
mal-estar entre as partes envolvidas.
Em conversa telefônica comigo, ela disse que, transcorridas
duas semanas, a reportagem ainda causa constrangimento a seus filhos
no colégio Bandeirantes, onde ambos estudam.
O episódio também serviu para Luzia descobrir que não
é fácil obter retratação do jornal.
Diante do protesto, o Folhateen manteve todas as declarações,
ainda que nenhuma das entrevistas tenha sido gravada.
O editor do caderno, Paulo César Martin, não vê
conteúdo discriminatório na reportagem, que em seu entender
retrata tendência de comportamento de um segmento da população
jovem da cidade. Em cerca de 20 abordagens, relata,
nenhum entrevistado contrariou essa tendência.
Ele considera que o repórter agiu de maneira responsável,
porque teve o cuidado de telefonar (para a filha de Luzia) a
fim de confirmar se tais palavras eram dela (segundo a mãe,
não foi mencionada no telefonema a declaração
publicada com destaque).
Por fim, nega que a frase sobre os palavrões tenha sido montada
ou induzida.
Ainda que permita evitar um erramos, a situação
de palavra contra palavra não é confortável para
o jornal.
Dois problemas são visíveis no incidente. O primeiro
diz respeito a equívocos de procedimento.
Nada impede e tudo recomenda que entrevistas desse gênero sejam
sempre gravadas (no entanto, ao investigar casos que me são
trazidos, fico surpresa com a quantidade de vezes em que essa providência
não é tomada).
Além disso, é preciso ter sensibilidade para perceber
que expor uma criança ou um adolescente no jornal não
é o mesmo que fazê-lo com um parlamentar, um artista
ou mesmo uma pessoa sem projeção pública, porém
adulta.
Com menores de idade, os cuidados têm de ser redobrados. Dependendo
da delicadeza do tema, isso inclui consultar os pais.
O segundo problema, já observado mais de uma vez neste espaço,
é a fragilidade comum a muitas das reportagens de tendência.
Com um punhado de abordagens de rua (que não atrapalhem o lide),
o jornal decreta que sanseis não se misturam e
preferem namorar entre si. Passa por cima de qualquer
evidência em contrário e da impossibilidade de generalizar
a partir de tão pouco.
Ainda que sobrevivam duas versões sobre as entrevistas, não
há elementos para rebater o diagnóstico geral de Luzia.
Rasa, a matéria serviu apenas para difundir preconceito.
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