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São
Paulo, domingo, 26 de novembro de 2000
RENATA
LO PRETE
Quarta-feira,
15 de novembro. A Folha afirmava em manchete que os cinco bancos
estrangeiros inicialmente interessados no Banespa tinham desistido
de participar do leilão.
Três haviam anunciado essa decisão. "HSBC e Santander,
que não se manifestaram oficialmente, também não
vão concorrer", informava o texto principal da capa.
Sexta-feira. Sem destaque, o jornal noticiava a entrega ao Banco Central,
pelo Santander, de documentos necessários para tomar parte
no leilão.
O BC, dizia a reportagem, "negociou para manter na disputa"
o Santander, que faria apenas figuração. "Está
credenciado, mas sua participação é incerta",
pois "recebeu recado" do banco central espanhol "para
pular fora". Motivo: "já teria investimentos demais
na América Latina".
Segunda-feira, dia do leilão. A capa advertia que, embora o
banco tivesse depositado as garantias, havia "dúvida"
quanto a seu comparecimento.
Nessa manhã, o Santander arrematou o Banespa por R$ 7,05 bilhões,
quase R$ 5 bilhões a mais do que a segunda melhor oferta, feita
pelo Unibanco.
Como se vê, para adivinhar o que estava por vir seria preciso
ler o noticiário pelo avesso. Em outras palavras, o jornal
não tinha a menor idéia do que se passava nos bastidores
do negócio do ano.
A desinformação não atingiu apenas a Folha.
A revista "Época" naufragou com uma reportagem de
capa na qual se relatava que o sumiço de arquivos do Banespa
havia assustado definitivamente os bancos estrangeiros.
Na segunda-feira, assustados ficaram o mercado e a imprensa diante
do apetite dos espanhóis, reedição do efeito
produzido pela Telefónica, dois anos atrás, ao comprar
a Telesp.
Entre os diários, a "Gazeta Mercantil" foi a que
mais se aproximou da convicção equivocada da Folha.
"Madri afasta os espanhóis do Banespa", afirmava
em 16 de novembro.
No dia seguinte, também abraçou a idéia de que
só o "trabalho de persuasão" do BC havia permitido
"segurar" o Santander na disputa. Apenas teve um pouco mais
de cautela com a teoria da figuração.
Outros jornais, no entanto, abriram algum espaço para dúvida.
O "Estado", mesmo aderindo ao coro do suposto favoritismo
de Bradesco e Itaú, apurou que o Santander havia recebido "sinal
verde da Espanha".
No domingo, enquanto a reportagem da Folha sobre as chances
dos competidores não citava uma única vez o Santander,
a do concorrente trazia, ainda que na última linha, frase que
não se leu em outro jornal: "Talvez (o banco espanhol)
seja uma das grandes surpresas do leilão".
Esta é a história de duas ilusões. A mais evidente
é a que foi vendida pelo noticiário: problemas variados
teriam feito com que os estrangeiros, sem exceção, perdessem
completamente o interesse pelo que o presidente do Banco Central definiu
como "a jóia da nossa Coroa".
A outra ilusão é a de que jornalistas sabem tudo ou,
pelo menos, muito mais do que o público. No caso, eram bastante
conhecidas as intenções de bancários, procuradores
e partidos de oposição, mas o jogo dos bancos, em especial
o do vencedor, correu longe dos olhos da imprensa.
Para quem tem a atribuição de informar, não é
confortável carregar nas costas "uma desinformação
de R$ 7 bilhões", como disse um dos leitores que me procuraram.
Mas acontece.
O problema mais grave é não reconhecer o erro. Na edição
de terça-feira, a Folha noticiou o "surpreendente"
resultado da véspera sem dizer que ele jogou no lixo a manchete
de 15 de novembro e várias afirmações publicadas
depois dela.
Além de não dar satisfação, o jornal concluiu
que o Santander havia tomado "no final de semana a decisão
de entrar no leilão". Duas observações:
a) não encontrei, fora da Redação da
Folha, muita gente disposta a levar a sério a tese de que
um negócio de tal vulto teria sido decidido de última
hora, como uma ida ao shopping para adiantar compras de Natal.
b) sem o reconhecimento do erro, a apuração do
jornal, consistente ou não, soa como tentativa de justificar
a manchete.
Com linha semelhante à da Folha até o leilão,
a "Gazeta" trouxe depois dele explicação diferente
e mais plausível. "A idéia era criar a sensação,
mesmo dentro de casa, de que o Santander havia deixado a disputa."
Não sabemos em que andar da casa estava a fonte da Folha.
O fato é que a manchete e seus subprodutos contribuíram
para o sucesso da estratégia de ataque-surpresa.
O episódio deveria estimular reflexão e alguma humildade
por parte dos jornalistas, mas não é certo que isso
aconteça.
Que sirva, então, para aumentar a desconfiança do leitor
em relação ao que lhe é apresentado como informação
de "altas fontes". Sob a aparência de segredo desvendado,
às vezes há apenas casca de banana.
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