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São
Paulo, domingo, 25 de setembro de
1994
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Juan
Esteves - 16.set.1993/Folha Imagem
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| Junia
Nogueira de Sá, que foi ombudsman da Folha de 21/9/93
a 27/9/94 |
JUNIA
NOGUEIRA DE SÁ
s Pelo interesse que despertou nos leitores da Folha, o caderno
"Olho no Voto", que circulou na edição do domingo passado,
mostra que o jornal poderia (melhor dizendo, deveria) ter investido
mais tempo, espaço e esforço na supereleição. Não que a cobertura
da Folha seja pequena -dados do Datafolha, também publicados
no domingo passado, mostram que ela é o jornal que mais páginas
dedica à sucessão presidencial. O problema é exatamente esse: para
a Folha (toda a imprensa, eu diria), a eleição de 3 de outubro
quase que se resume a uma disputa entre Lula e FHC. Mas, para o
leitor, vai muito além disso.
Durante a semana, recebi várias cartas e telefonemas sobre o caderno
"Olho no Voto", ou ainda com comentários sobre a (falta de)
cobertura da Folha para a disputa no Senado, na Câmara dos
Deputados e assembléias estaduais. A publicação do caderno certamente
estimulou os leitores a pensar nesse assunto, e a criticar o jornal.
De modo geral, eles se sentem mal informados sobre os candidatos
que concorrem a uma vaga no Congresso e nas assembléias, e concordam
em um ponto: do jeito como é, o horário eleitoral no rádio e na
TV não ajuda em nada. Quem não tem candidato, não é nesses programas
que vai arrumar.
Também de modo geral, os leitores contam com a ajuda do jornal para
decidir seu voto em 3 de outubro. Mas o jornal se ocupou pouquíssimo
dessa tarefa. Durante algumas semanas, apresentou candidatos numa
seção de seu caderno Supereleição, a "Opção de Voto". Na crítica
interna, sugeri que o leitor pudesse ao menos conhecer os critérios
de escolha dos nomes que apareciam ali; oficialmente, o jornal respondeu
dizendo que os critérios não seriam informados para evitar que outros
candidatos, argumentando caber neles, requisitassem o espaço na
Folha. De qualquer forma, a seção já deixou de ser publicada,
e o leitor nunca pôde saber por que foi que alguns ganharam aquele
palanque excepcionalmente visível, e outros não.
Voltando ao "Olho no Voto": os leitores que elogiaram o caderno
viram nele uma possibilidade de orientar sua escolha. Mas é bom
que fique claro: o caderno se ocupou apenas de avaliar o desempenho
de candidatos que disputam a reeleição, e apenas para a Câmara.
Como o jornal não pretende repetir a dose sequer com os candidatos
à assembléia paulista ou ao Senado, não há como não dizer que a
Folha fez um bom trabalho -mas pela metade. Os leitores reclamaram
disso.
Ocorre ainda que o "Olho no Voto" avaliou o desempenho dos
deputados federais que tentam a reeleição usando alguns critérios
no mínimo discutíveis. Como se desconhecesse que a atuação parlamentar
extrapola as quatro paredes do Congresso, a Folha publicou,
por exemplo, a lista de faltas (os dados são oficiais; quanto a
isso, não há o que discutir). Mas o jornal colocou no mesmo embrulho
as faltas justificáveis (quando o deputado se ausenta da Câmara
a trabalho, por exemplo), as faltas políticas (quando ele deixa
o plenário para obstruir a votação de uma matéria) e a gazeta pura
e simples. Com isso, despolitizou a avaliação.
Para mostrar ao (e)leitor como cada deputado votou em assuntos considerados
importantes, o jornal escolheu onze temas (do impeachment de Collor
à obrigatoriedade do voto nas eleições). Mas na hora de resumi-los
para o leitor, foi de uma superficialidade que pode ter comprometido
a compreensão do que se passou nessas votações. Um exemplo: em sete
linhas, a Folha explicou o projeto de aumento de salários
para os deputados votado (e aprovado) em dezembro de 1991. Mas não
informou de quanto era o salário antes da votação, nem quanto de
inflação o novo salário estava repondo sobre o antigo.
Num outro exemplo, o jornal usou 25 linhas para explicar o projeto
que aumentava o salário mínimo para US$ 100 até 1995, rejeitado
em agosto do ano passado. Nas páginas dos jornais, o debate em torno
dele consumiu semanas, e muito mais papel. Em sã consciência, ninguém
pode ser contrário a um mínimo de US$ 100. O problema é como chegar
a ele sem levar à falência prefeituras, pequenas empresas e o sistema
de previdência social. Temo que isso não tenha ficado claro no caderno
"Olho no Voto", e que a constatação de que determinados deputados
votaram contra o projeto tenha também lhes custado alguns votos
de (e)leitores irados.
Enfim, como disse um leitor em seu telefonema, é indesculpável que
um jornal que consegue produzir excelentes cadernos especiais em
megaeventos como a Copa dos EUA (ele falava do Copa 94) não dê conta
de preencher alguns vácuos da supereleição, ela também um megaevento
(que, sobre a Copa, ainda tem a vantagem de acontecer aqui mesmo).
É verdade que se esperava mais desta corrida pelo voto, e o fato
de que sua etapa mais atraente, a disputa presidencial, foi praticamente
decidida nas pesquisas de intenção de voto transformou toda a cobertura
numa chatice.
Nos últimos dias, num esforço para esquentar sua pauta e antecipar
o noticiário para seu público, toda a imprensa (com a Folha
na frente, diga-se), passou a se ocupar dos planos do futuro governo
FHC. Mas é assustador perceber como (quase) todos esses planos dependem
do Congresso, e que a uma semana das eleições os (e)leitores continuam
reclamando da desinformação a respeito do que pode vir a ser esse
mesmo Congresso. Para a próxima eleição, a imprensa já tem uma tarefa
complicada e necessária: tem que aprender a preencher o vácuo entre
o que ela noticia e o que os candidatos dizem de si mesmo nos programas
eleitorais. Caso contrário, vai continuar contribuindo para a manutenção
daqueles números com os quais ela mesma se espanta: uma pesquisa
Datafolha (publicada também no "Olho no Voto") mostrou que
54% das pessoas sequer se lembram do nome do deputado em que votaram
em 1990.
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