Fusão, Petrobras, ética na política, Fuvest
da Folha Online
Fusão
"Quem ganha com a aquisição da Sadia pela Perdigão? Absolutamente ninguém, com exceção dos controladores dos dois grupos. A primeira vítima é a economia de mercado, na qual é preciso haver pluralidade na oferta e concorrência entre os agentes. Se a concorrência existir, produz alta eficiência e preços baixos. Se não, ocorre o oposto.
Como consequência da primeira vítima, surge a segunda: o consumidor. Ele fatalmente será submetido a produtos de qualidade inferior por um preço mais alto. A terceira grande vítima será a cadeia abastecedora. Pecuaristas serão extorquidos ao máximo porque, pelo tamanho da nova empresa, a maioria praticamente não terá alternativa de comprador.
Nesta atual crise, inúmeras personalidades, do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz ao jornalista do "Financial Times" Martin Wolf, reforçam a tese óbvia que deveria ter sido adotada por governos de todo o mundo há décadas: nunca deixar uma empresa chegar a um ponto em que é grande demais para quebrar, como a Sadia, por exemplo. Quando isso acontece, a lei da seleção natural como mecanismo de aumento de eficiência e de redução de preços desaparece por completo.
O propalado argumento de que ganhos de sinergia e escala vão, no fim, beneficiar o consumidor é 100% falacioso, porque qualquer uma dessas duas empresas isoladamente já ultrapassou há muito tempo a escala após a qual não há mais ganhos legítimos. Não haverá redução do custo marginal, se for levado em consideração o custo total dos desempregos que essa fusão vai produzir. Segundo, não haverá redução do 'preço marginal', porque qualquer ganho será revertido em lucro. O mesmo vale para a fusão Itaú-Unibanco, e assim por diante.
O tempo em alguém ficava impressionado com grupos que faturam US$ 20 bilhões contra outros que faturam US$ 2 bilhões ficou para trás. Tamanho não é mais documento numa sociedade moderna. Se fosse, a GM não quebrava. Eficiência e sustentabilidade ampla, são. Espero que o Cade aja com sabedoria e preserve o interesse coletivo, o interesse público que jamais deve ser sobrepujado pelo privado."
ANTONIO CAMARGO (São Paulo, SP)
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Petrobras
"Com essa confraria que é o Congresso, o povo jamais virá a ser favorecido no que quer que seja. O povo só é lembrado na hora do voto; depois 'tchau e bênção'! Imaginem só o Renan Calheiros escolhendo Romero Jucá para relator dessa CPI da Petrobras! O governo prima pela maracutaia. Poderia ser melhor? Claro que não para os confrades todos. E o povo, ora, o povo, o povo que se lixe! E haja pizzaiolo para dar conta das encomendas!"
CONRADO DE PAULO (Bragança Paulista, SP)
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"A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse que a Petrobras foi uma caixa-preta no governo FHC. O que fez o PT que não exigiu uma CPI para investigá-la? Muito estranho que só agora, passados dez anos, a ministra resolva reclamar da Petrobras e seu partido tenha se calado; ou estariam comendo na mesma panela? Entretanto, o PMDB, partido voraz e insaciável, já disse o que quer. Embora a ministra negue acordos, sabe que, sem eles, o coração do planalto ficará exposto. Romero Jucá está a postos para ser o relator da CPI: ele quer garantir o cargo do irmão que perdeu na Infraero. Como se vê, as moscas vão mudando de lugar ao sabor do odor. Quanta sujeira, e o que não se faz por dinheiro! Mais uma vez a sociedade perde, enquanto políticos se beneficiam na dança das cadeiras."
IZABEL AVALLONE (São Paulo, SP)
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Ética política
"O ex-presidente da Coreia do Sul, antes de pular de um penhasco na manhã de sábado, deixou um bilhete suicida em que se confessa arrependido e envergonhado por ter recebido US$ 6 milhões de propina de um empresário, enquanto ainda se encontrava no cargo de presidente do país. Se a moral e o caráter asiáticos pudessem ser incorporados pelos nossos políticos, teríamos um momentâneo congestionamento em nossos penhascos."
VICTOR GERMANO PEREIRA (São Paulo, SP)
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Fuvest
"Discordo, respeitosamente, do dr. Milton Martins, da Faculdade de Medicina da USP, que enfatiza a importância da escolha de geografia com peso alto na segunda e decisiva fase da Fuvest.
Consciência social, respeito às diferenças étnicas e culturais ou geodemográficas das diversas regiões brasileiras realmente são muito importantes para a formação médica e de qualquer outro profissional. Porém, no geral, não serão tais avaliações que realmente irão ocorrer na Fuvest. Por que, então, história não teria igual importância, por exemplo?
Física, matemática, química, português, inglês e biologia são realmente as matérias que deveriam ter maior peso para medicina, seguindo um rigor técnico. No mínimo, 80%-90% do peso da nota final deveria englobar tais matérias. Em pesquisas é o que conta, na prática.
O estudante de medicina e o jovem médico terão condições plenas, ao longo de sua formação humana completa, de detectar a importância do conhecimento, da sensibilidade e do respeito às diversidades étnicas, culturais, sociais e geográficas do país no trato de seus pacientes. As questões se inter-relacionam natural e espontaneamente, sem forçar isso em uma avaliação de vestibular.
É um reducionismo extremo pensar que um simples vestibular vai proporcionar isso ao calouro, vai forçá-lo nessa direção. Envolve outros aspectos bem mais relevantes da formação do jovem, inclusive a educação familiar. Fosse assim, sociologia, filosofia e antropologia poderiam ser também tão importantes quanto geografia e história.
Será uma tremenda injustiça, na prática, dar um peso excessivo e decisivo em geografia para medicina, assim como a própria matemática para o curso de direito. Muitos alunos brilhantes de tais áreas podem ter dificuldades normais em tais matérias e serem eliminados, injustamente, da Fuvest, sem que o outro, com deficiências, por exemplo, em inglês e matemática (para medicina), seja avaliado corretamente.
Por fim, a organização da Fuvest foi extremamente infeliz, fazendo modificações estruturais importantes apenas seis meses antes do vestibular. Isso, com certeza, vai prejudicar muitos bons alunos. Não me convence, sinceramente, que os moldes do futuro vestibular será capaz de realmente selecionar os alunos de melhor formação geral. Isso deveria caber à primeira fase e, em parte, à segunda, sem exageros."
JOEL RENNÓ JR, diretor do ProMulher- Programa de Atenção à Saúde Mental da Mulher (São Paulo, SP)
