Castração, Raw, Toffoli, Bulas, Leite, Submarinos, Collor
da Folha Online
Castração
"De vez em quando chegam aqui no sertão os ecos da clerezia no Congresso Nacional. Desta vez até os sertanejos ficaram de cabelos em pé com o projeto de lei dos parlamentares que prevê a castração dos pedófilos e dos estupradores. Será que aprovariam uma lei semelhante para os corruptos e os prevaricadores? Foi o que o sertão inteiro ficou se indagando. Não é novidade que políticos costumam fazer discursos modernos em público para ganharem simpatia e votos, mas que na intimidade agem como velhos retrógrados, passadistas e defensores das teorias equivocadas de Lombroso. Claro que é mais fácil acreditar nos 'transtornos congênitos' do que admitir que as perversões e os distúrbios mentais do sujeito estão diretamente relacionados com as perversidades e com as doenças mentais da sociedade. Castrar é fácil. Aliás, aqui mesmo no sertão, quando os coronéis não iam com a cara de alguém, mesmo que estivesse se relacionando amorosamente com suas meninas e mulheres, simplesmente os mandavam capar. Lei do sertão! Lei da hiena! Uma espécie de canastrice eugênica. Lembra a pena de morte e a lobotomia, com seus equívocos e crimes. Amanhã poderão ser os alcoólatras, depois os obesos, depois os diabéticos, depois os epilépticos... E afinal, por que castrar seria menos criminoso que estuprar? E o que fariam com as mulheres abusadoras e estupradoras? Pelo menos o estuprador tem o álibi da tara, do vício, do desejo, da compulsão, da doença. E o Estado, com seus juízes e com seus parlamentares, em que se apoiará para despistar a mão mutiladora e sua ignomínia? Não sejamos idiotas: é evidente que a mesma sociedade que adoece tem o dever e a obrigação de cuidar e de desadoecer o sujeito, sem mutilá-lo. Se quiser instituir a castração para agradar a sete ou a oito moralistas miseráveis, que o faça, mas sabendo que, daqui para diante, nunca mais poderá abrir a boca para mencionar as aberrações cometidas nos campos do Terceiro Reich."
EZIO FLAVIO BAZZO (Canudos, BA)
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Raw
"Tem que apurar, é claro. Mas não vamos jogar fora a criança com a água suja do banho. Isaias Raw tem uma extensa lista de serviços ao país. Foi o criador das editoras da Universidade de São Paulo e da Universidade de Brasília; com a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (Funbec), levou à frente a mais importante iniciativa brasileira nesse campo. No início dos anos 70, no Rio de Janeiro, nos inspirávamos no projeto do curso experimental de medicina da USP e Isaias estava entre seus autores. Na década de 80, imaginou e dirigiu a Central de Insumos para a Pesquisa, também um projeto revolucionário enquanto durou. À sua atuação deve o Butantan grande parte do seu renascimento e de sua imensa contribuição ao Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde. Isaias está entre os que o Brasil produziu de melhor. Não sejamos perdulários."
REINALDO GUIMARÃES, médico e Secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde (Rio de Janeiro, RJ)
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Toffoli
"Prevê a Constituição que o presidente da República tem o poder de nomear os ministros do STF somente se o nome for aprovado pelo Senado. Desse modo, cabe ao Senado analisar o indicado do presidente e apenas aprová-lo se ele preencher os requisitos constitucionais e morais para o exercício de tão nobre e relevante função. E não há dúvidas de que uma pessoa condenada pela Justiça a devolver dinheiro público recebido indevidamente e, além disso, visceralmente ligada a um partido político, não pode ser ministro do Supremo. Que isenção teria ele para julgar seus ex-chefes? Será que julgará da mesma forma os adversários políticos destes? Esperamos que o Senado não se omita. Quem não exerce as atribuições e prerrogativas que possui, não merece tê-las. Se for apenas para homologar as indicações do chefe do Executivo, de maneira subserviente, que se mude a Constituição para deixar tal nomeação exclusivamente a cargo do presidente da República."
LUCIANO GOMES DE QUEIROZ COUTINHO, promotor do Gaeco (Bauru, SP)
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Bulas
"Muito bom saber que bulas deverão ser escritas em português inteligível de modo a podermos conhecer as reações adversas do dito medicamento (coluna do Ruy Castro de 19/9). Só que as reações deveriam vir escritas do lado de fora da embalagem. Explico: está se tornando moda os médicos receitarem medicamentos caríssimos e entregarem ao paciente o cartão da farmácia que, segundo eles, lhes darão um bom desconto (leia-se: comissão para o médico). Então o infeliz paciente deve pagar a fortuna que custa o medicamento para só então poder abrir a caixa e conseguir ler a bula. Se o mesmo não gostar das reações adversas, já arcou com o prejuízo."
DAGOBERTO VILLAFRANCA (José Bonifácio, SP)
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Leite
"Nestes dois últimos dias nossa imprensa tem dado muita ênfase aos produtores de leite da Bélgica que, em protesto pelos baixos preços oferecidos, jogaram caminhões de leite fora. A notícia é dada com conotação de condenação e crucificação. Mas, como é verdade científica, brasileiro não tem memória mesmo e é como o macaco que senta em cima do rabo e fica rindo do tamanho do rabo dos outros macacos. Voltemos a 1987 e vamos analisar a situação aqui, quando no Nordeste caminhões de cebola eram jogados fora enquanto aqui no Sul maravilha chegaram a jogar remédios fora, pelo mesmo motivo: não tinham preço (sei disso porque tenho uma carta minha, abordando esse assunto, publicada em 24 de maio de 1987). Depois passaram a jogar frangos, porcos, legumes e verduras, entre outros produtos nacionais, até que hoje em dia estamos jogando vidas humanas fora. Não estou achando graça."
NEREU PEPLOW (Curitiba, PR)
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Submarinos
"Tudo bem que o ministro Jobim e o presidente Lula queiram justificar a compra de submarinos. Só não pode nosso 'grande líder' fazer gracinhas ao dizer que o Brasil precisa 'mostrar os dentes' ou, pior ainda, achar que somos todos otários querendo justificar a compra dos submarinos para fazer frente à reativação da Quarta Frota americana. Menos, presidente, menos."
JOSUÉ LUIZ HENTZ (São João da Boa Vista, SP)
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Collor
"A meu ver, justa e merecida a decisão da justiça dando ganho de causa ao ex-presidente e senador Fernando Collor contra o ministro Franklin Martins. Colhe o resultado das leviandades e torpezas que plantou."
VICENTE LIMONGI NETTO (Brasília, DF)
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