Painel do Leitor
04/10/2009 - 02h32

Olimpíada, Marina Silva, Ficha suja

da Folha Online

Olimpíada

"Sinto-me como aquele sujeito que não entende a piada e fica olhando todos gargalhar à sua volta quando o assunto é Rio 2016 ou Copa 2014. Não vejo motivo para festa. Afinal, como pode um país sediar, em espaço inferior a dois anos, uma Copa do Mundo e uma Olímpiada e permitir que seus cidadãos morram em macas ou no chão de hospitais sem atendimento adequado, que suas crianças se transformem em traficantes por falta de escolas e oportunidades, que seus velhos recebam aposentadorias que não dão nem para seu sustento, que boa parte da população não tenha água tratada e coleta de esgoto, que bandidos tomem conta de presídios por falta de simples bloqueadores de celulares, que policiais mal pagos e sem equipamento não consigam dar o mínimo de segurança à população amedrontada, que o ensino público esteja sucateado e que boa parte de seus jovens tenham como meta sair do país? Peço desculpas a todos que festejam, mas, sinceramente, não entendi a piada e, portanto, não tenho motivos para sorrir."

JOSUÉ LUIZ HENTZ (São João da Boa Vista, SP)

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"As Olimpíadas inspiraram-me a escrever para a Folha. Um bom efeito, já! O artigo da Danuza Leão foi logo o primeiro que li. Depois daquele 'Tenho medo da Dilma', já imaginava que, dessa vez, ela gostaria de ter intitulado um assim: 'Sou brasileiro e não desisto nunca: 2020' ou 'No, we can't'.
Tenho um amigo que ontem torcia para Madri e, após o resultado, assim como a Danuza, destacou que seria oportunidade para os gatunos, criticou meia dúzia de políticos e desdenhou o patriotismo. Ambos encerraram com chave de ouro: 'Trata-se apenas de uma Olimpíada'. Apenas uma Olimpíada?
Torço, sim, para o Brasil estudar, trabalhar e fazer esporte. Vamos ganhar mais chances com as Olimpíadas. Concordo, sim, com a fiscalização citada pela Danuza. Mas espero ouvir por aí mais opiniões de torcidas para o Brasil como nação e povo, e não torcidas para políticos e seus partidos."

DARIO SCHNEEBERGER (São Paulo, SP)

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"Olimpíadas no Rio... Que maravilha! No entanto, imaginem gastar esse dinheiro com a urbanização das favelas do Rio. Povo miope, governo miope. É simples assim, um ser humano que cresce dentro de ambientes hostis e violentos tem maior tendência a se tornar hostil e violento do que aquele que tem o mínimo de integridade do lar e dignidade quando criança. Urbanização das faveles é um caminho natural. Eventualmente os terrenos terão que ser demarcados, os bairros, devidamente saneados, policiados, iluminados."

MAURÍCIO MEDAETS (São Paulo, SP)

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"O Brasil sediará a Olimpíada de 2016. Lula chora e diz 'ter vivido um de seus dias mais emocionantes' e afirma: 'Sempre achei que tinha alguma coisa que faltava ao Brasil'. A ministra Dilma, surfando na onda ufanista, afirma que 'o governo federal não faltará, vamos usar todos os recursos que o Brasil tem, e temos muito'. O evento vai custar R$ 28 bilhões (no Pan, as despesas triplicaram). Quem deveria se debulhar em lágrimas e ficar estarrecido é o sofrido povo brasileiro. O governo Lula, dizendo que não há recurso para a saúde, exorta à recriação da CPMF e estribilha que a Previdência Social, por ser deficitária, não pode atender os aposentados e torpedeia os benéficos projetos que tramitam no Congresso. A União não destina os meios pecuniários exigidos pela Constituição à educação, e as verbas empenhadas para o PAC mal conseguem sair do papel. O país carece de hospitais e escolas públicas, moradias, saneamento básico, transporte público, luz elétrica e alimentação.
O prefeito e o governador do Rio foram para Copenhague em avião emprestado de um empresário. É um espanto."

JUNIOS PAES LEME (Santos, SP)

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"Não sou eleitor de Lula, mas sou brasileiro. Não o tipo de brasileiro ranzinza que só reclama e desfaz de seu país. Não sou o tipo de brasileiro negativista e derrotista que acha que pobreza e corrupção só existem no Brasil. Nem acredito que tenhamos de abrir mão de sonhos grandiosos por causa da pobreza. Senão, continuaremos pobres material, cultural e espiritualmente.
Estive em Barcelona e, antes das Olimpíadas de 1992, aquela cidade era o pior que se podia conceber na Europa em termos de sujeira, gente pobre, corrupção e violência. Vi com meus próprios olhos o que as Olimpíadas fizeram com a cidade e com a estima de um povo que, recém-saído de uma ditadura e com crise econômica interna, mostrou seu valor e hoje pensa grande.
Até quando nós brasileiros vamos continuar amaldiçoando o que temos e desfazendo das chances de inserção no cenário internacional? Até quando continuaremos pensando como pobres? Até quando continuaremos usando como desculpas a pobreza, a corrupção, e tantas outras mazelas para continuar na posição de subdesenvolvido?
Pobreza, corrupção e violência também existem em Chicago, Madri e Tóquio. Qual a diferença? Não se dá tanta ênfase a isso, valoriza-se o que há de bom e deixam-se as mazelas para serem resolvidas em casa. Não se deixa de pensar grande porque se tem problemas. É aí que se separam os vencedores dos perdedores. Ouvi muita gente xingando o Brasil, xingando Lula, reclamando de 2016. Eu tenho certeza de que essas mesmas pessoas estariam também resmungando caso o Rio tivesse perdido. São os eternos descontentes, que usam o discurso intectualoide e socialista como um band-aid para tudo. Compatriotas, vamos pensar grande. Vamos ser grande!"

CARLOS A. HARMITT (Rio Claro, SP)

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"Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB (Comitê Olímpico Brasileiro). O dirigente que elevou o vôlei e, agora, leva o Brasil a receber uma Olimpíada. Ninguém, mas ninguém mesmo merece tantos louvores quanto ele. Eis um exemplo de um gestor desportivo que trouxe para o esporte os conceitos da administração científica.
Nuzman merecia ser capa da 'Time'. Sou isento ao elogiar, pois não o conheço pessoalmente."

FÁBIO SIQUEIRA (Uberaba, MG)

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Ficha suja

"A ideia de aumentar o número de assinaturas para além dos 1,3 milhão colhidos para o projeto de lei contra os candidatos ficha sujas nas próximas eleições que, infelizmente, não foram suficientes para sensibilizar Michel Temer a aderir ao projeto tal como ele foi apresentado não deixa de ser interessante (carta de Ronaldo Gomes Ferraz, no 'Painel do Leitor'). A cidadania precisa ser reforçada quando não respeitada pelos políticos, assim como deve ficar muito evidente a identificação daqueles que não o fazem."

PAULO MAGALHÃES (São Paulo, SP)

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Marina Silva

"Como sugerido por José Eli da Veiga nesta Folha (01/10), muitos são os motivos de esperança na eventual candidatura presidencial da senadora Marina Silva. Porém, sua posição em relação ao movimento criacionista, que existe de fato no Brasil, deve ser explicitada.
De fato, em entrevista concedida pela então ministra do Meio Ambiente ao site éoqhá (http://eoqha.net/entrevistas/), chama atenção a ambiguidade com a qual a confusão entre fé e ciência, principal característica do movimento criacionista, é tratada.
Marina Silva expressa nessa entrevista suas convicções pessoais que, no que toca à sua fé, devem ser respeitadas. O problema ocorre quando o criacionismo é introduzido, sem explicitação clara do seu significado por parte do entrevistador. A resposta da ministra sugere que o criacionismo seria matéria de escolha pessoal, de foro íntimo, cuja divulgação estaria condicionada ao direito de expressão plural de visões e de concepções filosóficas.
Porém, o criacionismo não é apenas matéria de escolha pessoal baseada na fé. Não se trata somente de 'olhar de tudo e reter o bem', como afirma a ministra. Trata-se, sobretudo, de uma ideologia que pretende distorcer conceitos científicos com o intuito de travestir fé religiosa em conhecimento rigoroso. O que é simplesmente inaceitável, tanto pela ótica da moral quanto pela da razão.
E é aí, nessa ambiguidade, que reside o foco de preocupação em relação à posição expressa por uma eventual postulante a chefe de um Estado laico. Sobretudo no que toca à formação científica de seus cidadãos.
Com efeito, educação religiosa deve ser cultivada em aulas de religião, não em aulas de ciência, como pretende e pratica o movimento criacionista. Em um Estado laico e plural, negar a fé em nome da ciência é tão ofensivo quanto tentar transformar crenças religiosas em conhecimento científico."

MARCELO ACCIOLY TEIXEIRA DE OLIVEIRA, Departamento de Geociências, Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC (Florianópolis, SC)

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