O fator Ciro Gomes (no Chile)
Em qualquer botequim de respeito, se é que ainda se discute política nos botequins hoje em dia, a pergunta inevitável é esta: conseguirá o presidente Lula transferir parte suficiente de sua colossal popularidade para sua candidata "in pectore", Dilma Rousseff, de modo a elegê-la no ano que vem?
Não me pergunte que eu não sei a resposta. Nem há história suficiente, em eleições presidenciais, para que qualquer resposta tenha um mínimo de embasamento em antecedentes.
Para não recuar a um Brasil que não existe mais há muito tempo, a única eleição que poderia fornecer um antecedente é a de 1960, em que Janio Quadros derrotou o marechal Teixeira Lott, o candidato do presidente Juscelino Kubitschek. Só que JK é muito mais popular hoje do que era há 50 anos; logo, qualquer comparação é manca.
Há, sim, antecedentes estaduais - e todos eles dão oxigênio aos torcedores de Dilma. Antes do golpe de 1964, Janio Quadros elegeu governador de São Paulo um técnico sem traços populistas e sem experiência eleitoral (Carvalho Pinto). E Adhemar de Barros, o outro grande caudilho paulista dos anos 50, elegeu Lucas Nogueira Garcez.
Depois da redemocratização, dois virgens em eleições, como Dilma, foram eleitos pelos seus padrinhos: Luiz Antônio Fleury Filho (por Orestes Quércia) e Celso Pitta (por Paulo Maluf). Se você é supersticioso, anote aí que criaturas e criadores brigaram depois da vitória.
À falta de antecedentes tapuias, façamos um exercício com eleições nas vizinhanças. Antes, ressalvo que nunca a situação de um país é perfeitamente transplantável para a de outro, por muito vizinhos que sejam. Menos ainda no caso das duas eleições iminentes na América do Sul, a do Uruguai, domingo, e a do Chile, em um mês mais ou menos.
Entre as muitas diferenças com o Brasil, há o fato de que são os dois únicos países sul-americanos em que o sistema partidário sobreviveu às ditaduras que devastaram o subcontinente nos anos 70/80.
No Brasil, ao contrário, os partidos nasceram a partir da ditadura.
Apontadas as diferenças, a grande semelhança, na comparação com o Chile, é o que se poderia chamar de fator Ciro Gomes. No caso, o fator Marco Enríquez-Ominami.
Explico: o Chile, historicamente, dividiu-se no que o jargão local chamava de "tres tercios" (a direita, hoje representada pelo líder nas pesquisas, Sebastián Piñera; o centro, liderado pela Democracia Cristã; e a esquerda, comandada pelos socialistas).
Com a ditadura Pinochet (1973/1989), o centro e a esquerda uniram-se na "Concertación" e passaram a ganhar sempre, como é óbvio, porque somam e sempre somaram dois terços.
Este ano, a "Concertación" indicou como candidato o ex-presidente Eduardo Frei (DC), que é o candidato da presidente Michelle Bachelet (socialista). Como Bachelet chega a ter, em uma pesquisa, 80% de popularidade, a vitória de Frei seria bastante provável, por mais que 20 anos de governos da "Concertación" tenham causado uma certa fadiga de material.
O problema é Marco Enríquez-Ominami (socialista) não aceitou a escolha de Frei e lançou-se como candidato independente, rompendo a disputa binária direita/esquerda (ou centro-esquerda). Como acontecerá se Ciro Gomes se candidatar à Presidência, rompendo o "plebiscito" que Lula publicamente afirmou desejar ("nós contra eles, pão, pão, queijo, queijo").
A mais recente pesquisa, da quinta-feira, mostra Frei/Dilma empatado com Marco/Ciro, na faixa dos 20%. Como é óbvio, a direita, com candidato único, se beneficia: Piñera tem 40%, o que, de todo modo, é um empate com a soma dos dois nomes saídos da mesma coalizão. Demonstra portanto que Bachelet não transfere seu prestígio - ao menos não todo ele - nem para seu candidato oficial nem para o candidato saído de seu partido.
No Uruguai, as comparações são mais difusas. Primeiro porque o presidente Tabaré Vázquez não tem nem de longe o mesmo índice de popularidade de Lula ou Bachelet.
Segundo porque seu candidato, José Mujica, tem uma militância política mais destacada e mais antiga do que a de Dilma e, portanto, depende menos da transferência de prestígio do atual presidente.
Como Dilma, Mujica é um ex-guerrilheiro, no que talvez seja a única semelhança entre eles.
De todo modo, resta o fato de que, no Uruguai, como no discurso de Lula, a eleição está sendo apresentada como o continuísmo da Frente Ampla, moderadamente esquerdista, ou a volta ao passado (Luis Alberto Lacalle, presidente de 1990 a 1995) ou a um passado mais remoto que Lula chamaria de "troglodita" (Juan Pedro Bordaberry, filho do presidente Juan María Bordaberry, que inaugurou em 1973 uma ditadura que duraria, com outros governantes, até 1985).
Repetindo a ressalva de que não há transposição automática de situação, são, ainda assim, eleições que vale acompanhar não apenas pela importância para os respectivos países mas também pelo que podem indicar (ou não) para 2010 no Brasil.
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Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo". E-mail: crossi@uol.com.br |

