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Clovis Rossi
28/10/2009

Um brasileiro na guerra do fim do mundo

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Há um ano exato, a ser completado amanhã, dia 29, o escritório em que Raphael Gonçalves Marreto trabalhava foi pelos ares. Três carros-bomba explodiram simultaneamente em três pontos diferentes de Hargeisa, na Somalilândia, região semi-autônoma da Somália: o complexo das Nações Unidas [onde ficava o escritório de Raphael], o consulado da vizinha Etiópia e o Palácio Presidencial. Trinta e cinco mortos, 92 feridos e a suspensão temporária das atividades da ONU naquela área, tida até então como relativamente segura.

Raphael, fluminense de Nova Friburgo, hoje com 32 anos, escapou porque partira uma hora antes dos ataques para a fronteira com a Etiópia em missão da Unocha, o Escritório de Coordenação Humanitária das Nações Unidas.

"Encontrei" Raphael (virtualmente) porque ele escreveu a respeito da "Janela" chamada "A África está a venda". Ele é formado em Relações Internacionais pela Universidade Estácio de Sá, com cursos de especialização na London School of Economics e na Uppsala Universitet, da Suécia.

Sua vida desde então é coisa de cinema, uma espécie de Indiana Jones tapuia. Já esteve no Nepal com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (é o braço da ONU que elabora o Índice de Desenvolvimento Humano), na Colômbia, como "Oficial Verificador de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração de grupos paramilitares", na missão de apoio ao processo de paz que a Organização dos Estados Americanos, e mais recentemente na Somália,

"Adoro meu trabalho", conta Raphael, para logo acrescentar: "Mas agora estou menos aventureiro em prol da paz. Os atentados terroristas andam limitando significativamente nosso trabalho, levam colegas queridos, impedem os povos de receberem ajuda e deixam marcas fortes nas pessoas, sejam elas físicas ou emocionais".

Aproveitei a experiência de Raphael para um breve entrevista sobre a Somália, que anda aparecendo muito no noticiário ultimamente por conta dos piratas que nela se abrigam.

Antes, o país inspirou "Falcão Negro em Perigo", filme de Ridley Scott, que retratou a tentativa de resgate de soldados norte-americanos de um helicóptero abatido. Os Estados Unidos literalmente fugiram da Somália depois desse episódio.

Resumo da conversa por e-mail:

"Janela"- A Somália é mesmo um 'failed State' (Estado falido ou fracassado), como diz a sabedoria convencional?

Raphael - Eu considero a Somália um pais onde de fato as estruturas governamentais não funcionam de forma ininterrupta. Existem várias tentativas de centralização e manutenção de um governo desde a queda de Siad Barre em 1991 mas já são 18 anos de tentativas que não vingam. Nesse sentido, pode-se considerar a Somália um "failed State".

"Janela"- Por que esse fenômeno da pirataria tem justamente lá seu epicentro?

Raphael - A Somália está estrategicamente situada em um dos pontos de maior movimento de navios do mundo, o canal de Suez e o Mar Vermelho, que ligam a Europa à Ásia e ao Leste da África. Os grupos armados operantes na Somália viram na pirataria um meio lucrativo de expansão de negócios e fonte de renda. Costuma-se dizer que o fenômeno dos "warlords" ("senhores da guerra"), que dividiu a Somália por tantos anos, agora parece que se estendeu aos mares.

"Janela" - O que a comunidade internacional poderia fazer para resolver o conflito na Somália?

Raphael - O conflito armado na Somália apresenta uma dinâmica regional, nacional e local muito volátil. O cenário no terreno muda significativamente de três em três meses. A sociedade civil não consegue se organizar por questões de segurança, ainda mais em país em que cerca da metade da população é de refugiados. Hoje a comunidade internacional teria mais eficiência com um esforço cívico/militar pró-paz por meio da Organização de Unidade Africana, Nações Unidas e IGAD [sigla em inglês para Autoridade Inter-Governamental para o Desenvolvimento, criada em 1996 no Leste da África].

Combater a pirataria é um grande esforço que está sendo desenvolvido para eliminar uma das principais fontes de renda dos grupos armados, mas ainda exige maior organização e estratégia internacional convergente, e não apenas esquemas de proteção privada por companhias de navegação. Assistência humanitária existe mas o trabalho é muito limitado pela falta de acesso às comunidades carentes e pela falta de segurança latente.

Convém também mencionar que a comunidade internacional está empenhada em implementar o Acordo de Paz de Djibouti, que estabeleceu um relativo e volátil cessar fogo e criou um governo central. É um processo que agora está enfrentado grandes desafios também para consolidar o presidente Sharif Ahmed (islamista moderado, no cargo desde janeiro].

"Janela" - A Al Qaeda tem realmente apelo por lá?

Raphael - Alguns grupos armados como o Al-Shabaab tem ligações com Al Qaeda. Anda que o modus operandi seja diferente, as doutrinas são similares: uso da sharia [a lei islâmica], eliminação e expulsão de estrangeiros e libertação e formação de uma Grande Somália etc. Existem relatos de campos de treinamento da rede Al Qaeda na fronteira da Somália com o Quênia.

A venda da África

Também a propósito da "venda da África", o jornal "Valor Econômico" informa que a FAO, agência da ONU para Alimentação e Agricultura, vai entrar no assunto e elaborar o primeiro conjunto de diretrizes globais já formulado para assegurar o acesso à terra a agricultores e investidores, para estimular a segurança alimentar e impedir grilagens arbitrárias de propriedades.

"Sem administração responsável, as crescentes demandas por terras ameaçam promover a exclusão social, à medida que os ricos e poderosos conseguem adquirir terras e outros recursos naturais à custa dos pobres e vulneráveis", disse Alexander Muller, diretor-geral-adjunto do Departamento de Recursos Naturais da FAO.


Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

E-mail: crossi@uol.com.br

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