Diário de viagem (e de moedas)
Na marquise da Selfridges, a decoração de Natal já colocada proclama orgulhosamente: "Aberta ao mundo desde 1909". É centenária, portanto.
Na esquina ao lado, a Marks and Spencer é ainda mais antiga: anuncia seu 125º aniversário.
São duas lojas de departamento, duas lojas muito britânicas, logotipos que nem a globalização permite que sejam vistos mundo fora, ao contrário de certas marcas norte-americanas.
Ficam as duas em outro produto tipicamente londrino, a Oxford Street, a mais movimentada rua de comércio da Europa e uma das mais do mundo, pela qual passam anualmente 200 milhões de pessoas --mais, portanto, do que toda a população brasileira.
Nos bons tempos, ocorrem congestionamentos de pedestres nos principais cruzamentos da Oxford. Tanto que, na segunda-feira, a Prefeitura inaugurou um "xis" branco, modelo Tóquio, para cruzar o Oxford Circus. Ou seja, o pedestre pode cruzar na diagonal, em vez de ser obrigado a fazer todo o retângulo como até agora.
A novidade até demorou: afinal, são 32 mil pessoas por hora a passar só pelo Oxford Circus, conforme as contas do "Times" de Londres, em minuciosa reportagem sobre o novo cruzamento, com direito a foto na capa, prova do relevo da rua.
O problema para ela, este ano (e até agora), é que não há congestionamentos de pedestres. Há muito movimento, claro, mas a crise econômica parece ter levado o consumidor a uma relativa contenção. O Reino Unido é o único dos grandes países europeus que ainda não saiu da recessão.
Congestionamento mesmo só (e sempre) na Primark, dois andares de roupas a preços imbatíveis, também na Oxford. Camisa de homem, por exemplo, pode ser comprada por até 2,95 libras. Mesmo fazendo a conversão pela cotação mais alta (R$ 6 por libra) que a minha longa memória alcança daria perto de R$ 18.
Hoje, sairia por R$ 5,72. Aposto que nem na 25 de Março, em São Paulo, ou no Saara, no Rio, dá para comprar camisa por esse preço.
É tão barato que fiquei até duvidando do cartaz na Primark que diz que a empresa monitora e trata de melhorar progressivamente as condições de trabalho dos seus fornecedores. Imagino que, com isso, estejam querendo dizer que não aceitam roupas produzidas com trabalho escravo ou quase escravo. Pode ser, mas a esses preços, sei, não.
Em todo o caso, é bom levar em conta que o real está sobrevalorizado demais. Na sala de espera do voo da Iberia para Madri e depois Londres, no sábado, ouvi casualmente a conversa de um casal de brasileiros com um amigo espanhol. Ele contava que fora ao Market Place, no Morumbi, procurando só marcas brasileiras, no pressuposto de que encontraria coisas mais baratas do que, por exemplo, uma camiseta (para ginástica) dessas marcas de roupas esportivas por espantosos R$ 50. Se ele fosse à Primark, levaria oito ou nove camisas sociais pelos mesmos R$ 50.
Com o real forte, é natural que o português (o do Brasil) seja ouvido com frequência na Oxford Street. Mas nem se compara com as duas línguas predominantes, mais até que o inglês, na Primark: o árabe e os idiomas do Leste europeu.
Reforça a minha teoria, absolutamente empírica e provavelmente cretina, de que quem derrotou o comunismo foi a Ku'damm, a Kurfürstendamm. Vem a ser a Oxford Street da antiga Berlim Ocidental. Suas luminosas vitrinas eram uma tentação irresistível para os alemães do Leste, condenados à pobreza ascética de suas próprias lojas.
É verdade que o produto que mais atraiu os alemães orientais, quando a fronteira foi aberta, há 20 anos, foram as bananas, abundantes na Berlim Ocidental e escassas do outro lado.
Mas não parece razoável supor que se derrubaria o Muro mais famoso do mundo só para comprar bananas.
Amanhã, quarta-feira, o português vai competir na Oxford com qualquer idioma: é o dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega, com nutrida comitiva, para receber um prêmio e abrir um seminário sobre investir no Brasil, promoção do "Financial Times" e do "Valor Econômico". O seminário será no Hotel Marriott Grosvenor Square, a uma quadra e meia da irresistível Oxford e seus 2,5 quilômetros ocupados por cerca de 600 lojas, um shopping a céu aberto.
Por falar em mulheres
Ao contrário do Brasil, em que a brecha entre homens e mulheres é vergonhosamente imensa, no Reino Unido prolifera o que o "Financial Times" chama de "empreendedoras de batom". Relatório do Laboratório do Futuro da Avon e da Federação de Pequenos Negócios diz que a recessão está acelerando o crescimento das mulheres donas de negócios.
Prevê que o número de empresas controladas por elas poderá dobrar em 10 anos, "levando o total de mulheres autoempregadas que dirigem negócios --de empresas unipessoais a outras mais substanciais-- para mais de 2 milhões".
Vai remodelar a sociedade e mudar a maneira como as pessoas trabalham, aposta o relatório.
Tomara.
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Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo". E-mail: crossi@uol.com.br |

