Senta que Obama não é manso
Se eu resolvesse aderir ao jornalismo "fast food" que assola parte da mídia, diria que o presidente Barack Obama começa a se parecer ao ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchev: popular no mundo mas nem tanto em casa.
Faz pouco, Obama ganhou o Nobel da Paz, sinal de que seu prestígio internacional supera até o fato de que a grande maioria de suas iniciativas ainda não tomou forma concreta.
Mas, nos Estados Unidos, o presidente perdeu duas das três disputas eleitorais em que se meteu. Os republicanos levaram os Estados da Virgínia e de Nova Jersey, ao passo que os democratas ganharam o 23º distrito eleitoral de Nova York.
A maior parte dos títulos dos jornais nos quais bati os olhos hoje destaca as derrotas, com um tom beirando o catastrofista (para o presidente). Na versão mais suave, a do francês "Figaro", foi "uma advertência" para o presidente.
Pode ser que o catastrofismo e a advertência sejam corretas, mas parece prematuro extrair conclusões muito definitivas sobre disputas eleitorais em que o próprio presidente não é candidato. Seria correto dizer que Lula perdeu em São Paulo, em 2008, porque não conseguiu eleger Marta Suplicy, por cuja candidatura se empenhou?
Acho que não. Em eleições locais ou estaduais, como as de agora nos Estados Unidos, o fator determinante para o resultado costuma ser local/estadual, com perdão da obviedade. Ou, então, a personalidade dos candidatos.
Por isso mesmo, os apressadinhos podem recolher suas machadinhas que é cedo para escalpelar Barack Obama como candidato à reeleição em 2012.
De todo modo, o presidente tem de fato perdido pontos nas pesquisas de popularidade, ainda que conserve um ano depois da vitória e com nove meses de gestão popularidade acima de 50% (51,7% de aprovação segundo o balanço mais recente da Real Clear Politics).
É uma diferença mínima para os 52% de votos que obteve há exato um ano. A vitória de Obama pareceu muito mais folgada por causa do sistema norte-americana de votação indireta: os eleitores escolhem delegados para o Colégio Eleitoral, não o presidente diretamente. Quem ganha um Estado leva todos os delegados daquela área, mesmo que a votação popular tenha sido, digamos, 51% x 49%.
Preservar o capital político depois de um ano em que a ofensiva dos republicanos foi cruenta e, não raro, mentirosa, é mais relevante do que perder duas eleições em que Obama nem foi candidato.
Não quer dizer com isso que o presidente não tenha sofrido desgaste, que se reflete nas opiniões críticas emitidas por setores que lhe tinham a maior simpatia.
O desgaste parece decorrer, acima de tudo, do fato de que, nos tempos ultra-velozes que vivemos, a ação política é lerda demais para acompanhar a velocidade.
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Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo". E-mail: crossi@uol.com.br |
