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Clovis Rossi
05/11/2009

Memórias do velho e do novo Brasil

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Não sei, ninguém sabe, se o século 21 "será o século do Brasil", como disse hoje o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um seminário em Londres que se transformou em um ato de fé verde-e-amarelo, tanto por parte das autoridades brasileiras presentes como pelos executivos estrangeiros que dele participaram.

Mas é cristalinamente claro o quanto o Brasil avançou no quarto final do século passado e nestes primeiros anos do século 21.

Nem vou buscar dados estatísticos. Puxo apenas pela memória, que é bastante longa.

Minha primeira cobertura de viagem presidencial a Londres se deu em 1976, há, portanto, 33 anos --uma vida.

O presidente chamava-se Ernesto Geisel. Curiosidade: por algum motivo que nem lembro mais, a cerimônia oficial de chegada deu-se na Victoria Station, estação de trens, não no aeroporto. No percurso da carruagem em que Geisel desfilou, como sempre ocorre nas chamadas visitas de Estado ao Reino Unido, havia uma pequena manifestação do protesto. Até um tomate chegou a ser arremessado, mas caiu longe.

As diferenças começam pelo lado institucional: Geisel, um dos presidentes do ciclo militar, não tinha a legitimidade de origem.

Lembro-me de ter obtido com um jornalista inglês amigo um resumo da saudação do então primeiro-ministro, James Callaghan, em que havia uma menção, muito ligeira, ao problema dos direitos humanos na ditadura brasileira. Volte ao ano da visita, 1976, espremido entre a morte de Vladimir Herzog (1975) que marcaria o começo do fim dos porões repressivos e o "pacote de abril" (1977), que delineava a tentativa da ditadura de eternizar-se por meio de regras eleitorais sob medida.

Depois, foram tantas as visitas de chefes de governo brasileiros que até acabei sabendo o nome de um dos garçons, aliás brasileiro, do boteco que fica mais ou menos em frente a Downing Street, a ruazinha em cujo número 10 reside e trabalha o primeiro-ministro britânico, e no qual nos refugiávamos à espera de que terminasse a conversa entre o presidente o premiê de turno.

Mas todos os demais presidentes que me tocou acompanhar tinham a legitimidade de origem. Aliás, só acompanhei dois, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, embora mais de uma vez cada um deles.

Só na legitimidade já há uma colossal diferença.

Mas há outra, um pouco menos colossal, pelo menos para quem, como eu, faz fé na democracia: desde que pôs a inflação sob controle, o Brasil fala a mesma língua do mundo desenvolvido. Claro que tem problemas, alguns deles mais graves do que o dos ricos, mas são problemas compreensíveis.

O curioso é que Fernando Henrique Cardoso fala um inglês mais do que aceitável e Lula não fala mais que "thank you". Ele próprio brincou na noite de ontem quando lhe perguntei se iria telefonar para Barack Obama (para convidá-lo a ir a Copenhague discutir a mudança climática) do hotel em Londres (o luxuoso Rochester) ou ao voltar a Brasília.

"De Brasília. Aqui, o telefone fala inglês e eu não falo", brincou.

Mesmo assim, Lula conquistou os ingleses mais do que FHC. A sua história de vida, mais emocionante, pesa, claro. Mas pesa também o fato de que os números da economia brasileira têm sido, nos três ou quatro anos mais recentes, bastante sedutores.

O paradoxo aí é que a política que deu certo é aquela que Lula e o PT passaram 20 anos, até chegar ao poder, dizendo que não dava certo. Agora, Lula não diz mais. Tanto que brincou ontem, no seminário sobre o Brasil: "Os banqueiros estão ganhando muito dinheiro. Graças a Deus. Quando quebram, dá um prejuízo danado".

Memória é bicho gozado. Como dizia o velho sábio que habitava a Folha, eu também vivi o suficiente para ver tudo acontecer e o seu contrário também.


Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

E-mail: crossi@uol.com.br

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