Carta ao soldado morto
Pobre Gordon Brown. É justo que o primeiro-ministro britânico pague, em queda de popularidade e na mais que provável derrota eleitoral no ano que vem, o preço por seus pecados. Política é assim mesmo. Mas é cruel que pague também por um ato extremado de solidariedade.
A história em resumo é a seguinte: Brown tomou a iniciativa de escrever uma carta do próprio punho à mãe de Jamie Janes, um soldado de 20 anos morto em missão no Afeganistão.
Ninguém hoje em dia escreve letras do próprio punho, imagino. Em um país que deve ser dos que mais teve soldados mortos desde tempos imemoriais, é lógico supor que as Forças Armadas tenham arquivados em seus computadores vários modelos de cartas de condolência.
Mas Brown preferiu escrever ele mesmo, embora saiba que sua letra é indecente porque tem problemas de visão. O resultado é que trocou o sobrenome da família do rapaz, de Janes para James, o que, para a mãe, passou como desleixo, falta de respeito ao filho morto em combate e tudo o mais que tem o direito de sentir uma mãe que acaba de perder o filho.
Havia outros erros de ortografia, que o gabinete do primeiro-ministro jura que não eram erros mas letra ruim.
Seja como for, o fato é que o episódio acabou se somando a uma galeria de atribulações de Brown, que levaram sua popularidade cair a um nível baixíssimo.
É verdade que o tratamento que a mídia deu ao episódio acabou despertando no público uma certa simpatia pelo primeiro-ministro, exatamente porque extremara a solidariedade, ainda que pudesse ter errado de fato na grafia de um sobrenome e de algumas palavras.
De todo modo, a reação da mãe acabou tocando em um ponto extremamente sensível para o público britânico, que é a condução da guerra no Afeganistão. Ela diz que a falta de meios materiais e humanos adequados foi a responsável pela morte do filho. Não havia helicóptero disponível para o resgate de Jamie, que acabou morrendo em consequência dos ferimentos.
Como a maioria dos britânicos acha a guerra "inganhável", se me permite o neologismo decorrente da tradução linear do inglês "unwinnable", é natural que não se aceite a morte de qualquer soldado já que ele não está lá para ganhar mas para morrer.
Acontece que a última coisa que o primeiro-ministro pode fazer, nas condições presentes de temperatura e pressão, é sair correndo do Afeganistão para evitar que outros Jamies morram ou fiquem mutilados.
Por fim, uma curiosidade: algum governante brasileiro mandou, nos tempos em que havia cartas do próprio punho ou agora em que o computador faz tudo, um texto de condolências à família de alguma vítima da violência no Brasil?
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Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo". E-mail: crossi@uol.com.br |
