Confiança é a chave da missão Lula
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Como diplomacia não é ciência exata, não passa de chute afirmar que há 99% de chance de a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva arrancar um acordo do Irã. É chute também o palpite do presidente russo, Dmitri Medvedev, que crava apenas 30%.
Números à parte, há um elemento intangível, chamado confiança, que é a chave para um acordo. Por isso, a missão Lula tem realmente chances razoáveis de ser bem sucedida.
Para entender todo o cenário, há que voltar ao início das negociações na sua fase atual.
Em outubro, o Irã voltou a reunir-se com o P6 (Alemanha mais os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido).
Nessa reunião, foram os próprios técnicos iranianos que surgiram com a proposta que continua sendo a base da negociação e a única hipótese de ela dar certo: trocar urânio pobremente enriquecido iraniano por urânio enriquecido em outro país (a proposta falava em França e/ou Rússia), mas em nível que não permitisse o uso para fins militares.
A proposta foi bem recebida pelo P6, que, no entanto, pediu precisões e discutiu números. Os iranianos ficaram de consultar Teerã (ou seja, o âmbito político, que é quem decide) e dar uma resposta. Nunca a deram.
O chanceler Celso Amorim descobriu a razão depois, em seus contatos com um lado e outro: confiança ou, mais exatamente, falta dela. Os iranianos temiam que, se cedessem seu urânio, jamais o receberiam de volta.
Queriam uma fórmula tipo toma-lá-dá-cá instantânea, o que é impraticável: não há barras de urânio enriquecido nas especificações necessárias aos reatores iranianos que possam ser encontradas no supermercado da esquina.
Em janeiro, em Davos, Amorim ouviu de seu colega iraniano Manoucher Mottaki "novas ideias" para a troca de combustível nuclear, conforme a versão de Mottaki aos jornalistas brasileiros.
Depois, Amorim diria que o que se discutira foram "tempos e quantidades" de implementar a proposta.
Volta-se, aí, à questão central da confiança: "tempos" significa encontrar uma fórmula que permita superar o receio iraniano de não receber seu material de volta. "Quantidades" é o óbvio: quanto do urânio iraniano será enviado ao exterior.
Não pode tanto que esvazie os estoques completamente nem tão pouco que deixe o P6 desconfiado de que o Irã ainda guarda o suficiente para fazer a bomba.
É seguramente essa fórmula que Lula está levando ao Irã.
Por quê Lula tem chances onde outros fracassaram? Exatamente pela questão da confiança: o Brasil merece a confiança tanto do Irã como dos Estados Unidos. Junto com a Turquia, conegociadora, são dois raros países, talvez únicos, nessa condição.
O que não quer dizer que, em havendo a concordância do Irã com a proposta que Lula leva, está tudo resolvido. O P6 e a Agência Internacional de Energia Atômica ainda precisam ser convencidos de que o Irã merece a confiança que Lula deposita nele. É nesses âmbitos que se baterá efetivamente o martelo (ou não).
Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".
