Pensata

Eliane Cantanhêde

22/07/2007

O rei da Bahia

A morte do poderoso senador Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA) completa o ciclo de mudanças do PFL, 22 anos depois de sua fundação: trocou a sigla para DEM, substituiu o ex-senador Jorge Bornhausen (SC) depois de décadas na presidência e está em busca de uma nova imagem, bem mais moderna, para se contrapor à esquerda.

Quem está no comando é a "turma jovem", sem o carimbo do apoio à ditadura militar que vem da Arena e do PDS.

Como o próprio Bornhausen já vem dizendo há meses, toda a sua geração (incluindo aí ACM) passou a ser coisa do passado. Sua fixação é que o novo DEM tem que se projetar para o futuro, criando principalmente condições de maior independência do PSDB (com o qual dividiu chapas em 1994, 1998 e 2006) para disputar eleições presidenciais com candidaturas próprias.

Os dois líderes viviam às turras. ACM, o passional coronel nordestino, e Bornhausen, o "alemão", sulista e frio, discordaram várias vezes, inclusive sobre ser ou não oposição a Lula.

Bornhausen venceu as duas últimas batalhas: o DEM é o partido que faz oposição mais nítida ao governo, ao contrário do que tentou ACM no início, e o novo presidente é o deputado Rodrigo Maia (RJ), não o também deputado ACM Neto, o principal herdeiro político de ACM. Bornhausen achava que seu nome, ao contrário do de Maia, "remetia muito à ditadura militar".

"Mas todos vão prestigiar o ACM Neto, que não é apenas um político talentoso e competente como também o herdeiro natural do mito que ACM continuará sendo durante muito tempo na Bahia, um mito fundamental para o partido", disse Rodrigo Maia. A principal preocupação é manter a força do DEM na Bahia.

ACM Neto é, de fato, prestigiado no DEM e no próprio Congresso, mas a verdade é que o espólio carlista vem se esgarçando devagar e sempre desde que o deputado federal Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA) morreu, em 21 de abril de 1998. ACM sobrevivia com a força conquistada no passado, mas perdeu a perspectiva de poder futuro, que tentou recuperar com ACM Neto, sobrinho de Luiz Eduardo.

O velho senador, que só em raros momentos provou o gosto de ser oposição, como no governo Lula, comandou seu grupo político na Bahia com mão de ferro, selecionando nas universidades quadros bem formados e obedientes, a quem impôs uma lei: ele mandava, todos obedeciam. Com sua morte e depois da surpreendente derrota para o PT, em 2006, vai haver certamente um reequilíbrio no grupo carlista.

Se foi autoritário e antigo na forma, ACM também foi considerado moderno e desenvolvimentista no conteúdo. Mesmo setores da esquerda, como o deputado e ex-ministro Aldo Rebelo (PC do B-SP), admitem que a Bahia que ele deixa avançou muito mais, em várias áreas, do que os vizinhos nordestinos --do que o Maranhão de José Sarney, por exemplo.

São muitos os políticos que despontaram pelas mãos de ACM e que foram sendo jogados ao mar também por ele, enquanto Luís Eduardo era vivo e sucessor inquestionável na Bahia, com pretensões de disputar a Presidência já em 2002. Sua presença mantinha o grupo carlista e suas ambições sob controle. Ninguém ousaria competir com o filho do rei.

A morte de Luís Eduardo, de infarto, aos 43 anos, destampou uma espécie de panela de pressão. Sem ele, os personagens da política baiana passaram a disputar não apenas espaço de poder, mas principalmente as graças do grande cacique. Nesse novo momento, não apenas ACM lançava seus homens ao mar. Eles também passaram por conta própria a pular do barco.

Preteridos para diferentes cargos, em diferentes eleições, deixaram o carlismo ao longo do tempo políticos como o ex-governador João Durval (que agora no PDT "rouba" uma vaga do grupo no Senado), o ex-prefeito Mário Kertezs (que abandonou a carreira política) e o ex-presidente da CPI que derrubou Fernando Collor, Benito Gama (que pulou para o PMDB, está no PTB e perdeu duas eleições consecutivas).

Na lista de baixas, ainda o ex-ministro de Minas e Energia Raymundo Britto, trocado no cargo no governo FHC pelo também neófito em política Rodolpho Tourinho, e Waldeck Ornellas, que chegou ao Senado, mas não teve a bênção para disputar o governo da Bahia e voltou para a universidade.

Com o acirrar das disputas internas do grupo, abertas pela ausência de Luiz Eduardo, começaram também as derrotas nas urnas, a mais espetacular delas em 2006, quando o carlista Paulo Souto perdeu uma reeleição tida como certa para o Palácio de Ondina para o petista Jaques Wagner, enquanto Tourinho perdia a cadeira no Senado para o pedetista e ex-carlista João Durval.

Hoje, o carlismo baiano mantém duas cadeiras no Senado, a do próprio ACM e a do ex-governador César Borges, numa bancada de 17 "democratas". Tem ainda uma influência mais ou menos direta sobre um universo estimado em 20 deputados federais, numa bancada de 57. Não é pouco.

Sem ACM, o grupo continuará unido, porque senão será fatalmente vencido. Mas a liga é mais difícil e a liderança certamente será disputada a foice. Essa disputa pode começar, sinuosamente, pela própria família, onde despontam dois netos de ACM.

O mais destacado é ACM Neto, filho do primogênito ACM Jr., empresário e suplente de ACM no Senado. Ele, porém, não está sozinho. Duquinha, ou Luís Eduardo Jr., filho do deputado morto em 1998, está sem mandato, mas tem gosto pela política e apoio da mãe, a empresária Michelle.

Paulo Souto conseguiu driblar as resistências de ACM e fechar o acordo da cúpula dos "democratas" (com Rodrigo Maia à frente) para presidir o diretório do partido na Bahia. Além dele, o deputado federal José Carlos Aleluia é nome forte --e em ascensão-- no Estado e na cúpula nacional. Há também César Borges e personagens que ainda estão limitados ao espaço baiano, mas com boas chances de chegar ao Congresso, como José Ronaldo, atual prefeito de Feira de Santana, importante cidade do Estado.

Mas o maior risco não vem de dentro, vem de fora. Depois de perder o governo para o PT, há sinais agora de que os "democratas" começam a perder o interior para um personagem esperto e ambicioso: o peemedebista Geddel Vieira Lima, velho aliado dos tucanos e que agora é ministro da Integração Nacional no governo Lula.

O fato é que, sem ACM e depois da derrota de 2006 para o PT, o grupo baiano jamais será o mesmo, nem no Congresso e nem mesmo no sucedâneo do PFL, onde ACM chegou um ano depois da fundação, em 1985, e já pronto para disputar liderança com o senador Jorge Bornhausen.

Essa disputa durou décadas, ora pendendo para um lado, ora para outro. Bornhausen sempre foi o verdadeiro comandante, mas ACM tinha "tropa" (um partido dentro do partido). "Jantar do PFL que não vou não vale", dizia ACM, alto e bom som, sabendo que todas as decisões necessariamente passavam por ele.

Com um novo nome --Democratas-- e sem ACM e sem Bornhausen, que se retirou da política, o PFL vai tentar enterrar seu mais pesado fantasma: os vínculos com a ditadura militar. Dos quais, aliás, ACM e Bornhausen foram importantes representantes, até se tornarem ícones da dissidência que desembocou na redemocratização de 1985.

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.

E-mail: elianec@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca