Eliane Cantanhêde
Teimosia de Renan e Zuanazzi
Renan Calheiros bate pé e fica na presidência do Senado. Milton Zuanazzi bate pé e fica na presidência da Anac. Já imaginou se na iniciativa privada fosse tudo assim tão fácil?
Nem seria preciso dizer que há enormes diferenças entre os casos Renan e Zuanazzi. O senador responde a quatro processos por desvios, falta de decoro, vacas magras e contas gordas. Já o presidente da Agência Nacional de Aviação Civil responde pelos erros -- que são mais de Lula e do governo do que dele -- de uma agência que foi mal montada, mal escolhida.
O que une Renan a Zuanazzi é a teimosia em ficar, apesar de tudo e de todos e do constrangimento que impõem a suas instituições e ao governo que os apóia. No caso de Zuanazzi, pior ainda: o constrangimento é ao governo que o colocou onde está, mas não consegue tirá-lo. E vão ficando...
Renan, político experiente e esperto, recorreu a todas as armas disponíveis. Convenceu colegas de coração mole, ameaçou os de rabo preso, alegou "falta de provas materiais" e, por último, agarrou-se à melhor das bóias: a CPMF.
Explica-se: para o governo Lula, a única votação realmente importante no Congresso é a CPMF, que vai render em torno de R$ 36 bilhões aos cofres públicos no ano que vem, caso mantida como está. E, para o mesmo governo, o grande problema é que sua situação no Senado não é nenhuma Brastemp. Ao contrário, sua maioria é periclitante. O PT é fraquinho, a base aliada não é confiável, a oposição é bem mais barulhenta do que a da Câmara. Aí entra Renan, para desequilibrar o jogo pró-governo, ou seja, pró-prorrogação da CPMF.
Renan já suportou as denúncias mais cabeludas, as manchetes mais doídas nos jornais, uma crise familiar de bom tamanho, discursos irados dos seus opositores, mas conseguiu as duas coisas mais importantes: 1) apoio de Lula, que fala a seu favor, e do Planalto, que age para salvá-lo; 2)a vitória na votação decisiva, que foi a primeira. Agora, como ele me disse ontem, "tudo é uma questão de paciência". Leia-se: é deixar o tempo passar, as demais denúncias se esvaziarem e ir ficando. Se sair, será por um único motivo: porque quis. Vai querer?
Zuanazzi não é político, não é experiente e pensava-se que não era esperto. Mas uma coisa ele é: teimoso. Haja teimosia! A Anac foi mal montada, mal escolhida, mal gerenciada e ainda por cima lhe caíram um Boeing e um Airbus bem na cabeça. Denise Abreu fez o resto: um charuto em festa fora de hora (em meio ao maior caos aéreo da história), a denúncia de tráfico de influência e, por fim, a descoberta de que usou um documento fajuto para liberar a pista de Congonhas na Justiça.
Denise caiu, o coronel Velloso renunciou, Leur Lomanto foi atrás, ontem lá se foi também Josef Barat. A diretoria desmoronou como um castelo de cartas, mas o presidente continua lá, digamos que nem firme nem forte, mas continua. "Daqui não saio, daqui ninguém me tira."
Na segunda-feira passada, Zuanazzi foi ao seu padrinho político, o ministro Walfrido dos Mares Guia (Coordenação Política), avisar que vai sair, sim, mas só quando quiser, e não vai querer enquanto o ministro da Defesa, Nelson Jobim, fizer declarações contra ele na imprensa.
Ontem, Mares Guia foi a Jobim e disse que Zuanazzi só vai sair depois que três novos diretores forem aprovados pelo Senado. Alega que este é o quorum mínimo para a Anac funcionar de fato e deliberar. Como se ele não estivesse lá sozinho, ao Deus dará.
Em resumo: se for assim, Renan fica e Zuanazzi não sai tão cedo.
O que Lula acha disso? Ele não sabe, não vê. Está em Nova York, brilhando na ONU.
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Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília. E-mail: elianec@uol.com.br |

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A que ponto chegamos....
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Muito Grato por vossa opinião.
Bom final de domingo Sr. Marco.
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