Eliane Cantanhêde
Troca, troca e nada muda
No mesmo dia, a Mesa do Senado arquiva o pedido de processo contra o tucano Eduardo Azeredo e, como num passe de mágica, o PSDB passa a negociar abertamente a prorrogação da CPMF.
Nada nesta vida é por acaso, muito menos decisão política e menos ainda acordo entre governo e oposição. Digamos que tudo acaba tendo um preço, e na falta de moedas iguais, vira um troca-troca. Um senadorzinho livre de um processo daqui, uma CPMF até 2011 dali.
Ao aliviar a barra de Azeredo, a Mesa alegou que eram suspeitas sobre atos antes do mandato e que, além disso, ele já tinha se livrado das mesmas acusações em votação anterior. Ao negociar a prorrogação da CPMF, como tanto precisa o Planalto, o PSDB alegou que, puxa, é preciso negociar um "projeto melhor". Negociar redução da carga tributária, menos gastos públicos, mais verbas para os governadores. Blablablá. As alegações apenas escamoteiam o troca-troca mais deslavado.
Depois de cassar o primeiro senador depois da redemocratização, Luiz Estevam, de Brasília, e depois de obrigar os ex-presidentes da Casa Jader Barbalho e ACM a renunciarem, agora o Senado trata o caso de um terceiro presidente, Renan Calheiros, como batata quente. Fica pulando na fervura, vai para um lado, vai para o outro.
Na mesma decisão sobre Azeredo, a Mesa também "sobrestou" (palavrinha horrível...), ou seja, paralisou, adiou, deixou prá lá, o que seria o sexto processo contra Renan Calheiros. Alegação? A de que era preciso cuidar dos demais processos em andamento. No fundo, prevaleceu o que o presidente interino, Tião Viana (PT-AC), dizia aos seus pares: seria um "exagero" jogar mais um processo contra Renan. Ele vai acabar sendo cassado mesmo...
Tião, aliás, está se saindo melhor do que a encomenda. Médico, com cara de bonzinho, até agora tido como inexperiente no jogo duro da política congressual, ele está fazendo tudo direito. Põe curativos nas feridas da bancada petista, tenta juntar a base aliada, aproveita-se de sua boa e longa convivência com os tucanos para negociar a CPMF com a oposição.
Renan? Estava de licença, agora está de licença médica e todo mundo sabe que a brincadeira para ele acabou. Tinha a opção de renunciar, para tentar voltar pelo voto, como fizeram Jader Barbalho e ACM. Preferiu ficar e pagar para ver. Tinha tudo para escapar, mas jogou fora ao romper o corporativismo do Senado, tirando Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos de comissões e investigando Marconi Perillo e Demóstenes Torres. Perdeu qualquer chance de vitória. Se não renunciou, acabará cassado. A ver.
O pau está quebrando, aliás, para fazer o sucessor. Mas, como o nome mais forte sempre é o mesmo, o de José Sarney, há uma espécie de contra-articulação. O medo da volta de Sarney no PSDB, no PFL e em parcelas governistas pode gerar uma solução conservadora: Tião vai ficando, vai ficando... e pode acabar ficar mesmo.
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Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília. E-mail: elianec@uol.com.br |
