Pensata

Eliane Cantanhêde

05/12/2007

Indícios robustos

O relator do terceiro processo (que resultou na terceira absolvição) de Renan Calheiros, Jefferson Peres (PDT-AM), escreveu e disse que havia encontrado "indícios robustos" que justificavam a cassação. O problema é que ninguém no Senado estava preocupado, àquela altura do processo, em indícios ou provas. A questão era outra. Aliás, as questões eram outras.

Renan suportou quase duzentos dias de crise e pancadaria, na vida pública e na privada. Licenciou-se da presidência do Senado no dia 11 de outubro, sabendo que a licença era sinônimo de renúncia, mas mantendo o cargo porque este passou a ser o seu grande, senão único, trunfo. Era dar a presidência para salvar o mandato de senador. Vão-se os anéis, ficam os dedos...

A renúncia à presidência foi o gesto decisivo, na hora decisiva. Renan a anunciou justamente no início da sessão do plenário marcada para votar sua cassação no processo em que era acusado de usar "laranjas" para comprar rádios e TVs em Alagoas com o usineiro João Lyra, o sócio que virou inimigo.

Ao renunciar, Renan seguiu os passos de dois de seus antecessores na presidência do Senado: Jader Barbalho (PMDB-PA) e Antonio Carlos Magalhães (então PFL-BA). Um voltou como deputado e ativo articulador de bastidores pró-governo Lula. O outro, ACM, voltou como senador e morreu neste ano com mandato.

Renan, assim, salva sua carreira política, ou pelo menos os cacos que restam dela, suficientes para uma boa colagem em Alagoas e a volta ao Congresso nas próximas eleições. Resta saber, agora, qual a profundidade e quais os alvos de sua mágoa e o que ele pretende fazer com ela daqui em diante.

Ele não chegou à presidência do Senado à toa. Tem experiência, tem liderança, tem amigos e, sobretudo, tem informações. Já andou escarafunchando suspeitas contra adversários seus em Goiás. Pode estar preparando o troco contra os colegas que participaram de sua execração em praça pública.

A crise, portanto, não acabou, apenas muda de figura. Desde a terça-feira, Renan sai dos holofotes e passa aos bastidores, para seu alívio e para certo sobressalto em outras áreas. O foco passa a ser a disputa no PMDB pela sua sucessão na presidência do Senado e a votação da CPMF. Como pano de fundo, há a ameaça ainda velada de novas denúncias por aí. O novo presidente, seja quem for, que se prepare.

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.

E-mail: elianec@uol.com.br

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Comentários dos leitores
Márcio Cardoso (3) 23/05/2008 01h35
Márcio Cardoso (3) 23/05/2008 01h35
SALVADOR / BA
BARSÍLIA CONSEGUE SER PALCO DOS CRIMES PERFEITOS, CONTRARIANDO AS TESES. É UMA VERGONHA. VOTAR É OBRIGATÓRIO, MAS JULGAR PODRES POLÍTICOS TEM QUE SER SECRETO E A MARGEM DA OPINIÃO PÚBLICA. ONDE IREMOS PARAR? O QUE MAIS VAMOS ENGOLIR? O BRASILEIRO É MUITO PACIENTE, OU SERIA INCONSCIENTE? MEUS FILHOS AINDA VÃO SOFRER MUITO. sem opinião
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Luiz Stephano De Módena (1211) 25/02/2008 06h58
Luiz Stephano De Módena (1211) 25/02/2008 06h58
GUARUJA / SP
Enquanto a impunidade reinar neste país, servindo de alicerde para todo tipo de imoralidade e de corrupção, esse tipo de conduta e desrespeito dos maus políticos ao cidadão brasileiro, será sempre uma rotina, que na gíria seria definido como "tipo" é "normal".
A que ponto chegamos....
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Antonio Fouto Dias (1327) 24/02/2008 17h36
Antonio Fouto Dias (1327) 24/02/2008 17h36
Boa Tarde, Sr. Marco Carneiro, 24/02-11h02 - Quanto a questão que o senhor coloca na conclusão de vosso comentário, ó senhor mesmo coloca a resposta no seu teor. Supostamente, só pode mesmo ser pela GRANA que envolve cada ministério ou cada empresa estatal que tudo fazem para que partidários exerçam suas funções na administração dos mesmos. Um dos partidos que mudou de rumo e para pior, foi o PMDB, que já teve em suas fileiras, Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Mário Covas, entre outros e que daquele tempo de MDB, restam muitos poucos, como Pedro Simom, Jarbas Vasconcelos e Mão Santa. Este PMDB, dava a alma em defesa dos interesses nacionais e não queriam nada por isso, entretanto de uns tempos para cá, só sabem e exigir vantagens para votar em projetos de interesse do Governo. Pelo que o senhor escreve, pensamos a mesma coisa nesse aspécto de indoneidade na política. Eu tenho uma opinião, em que encontrei adeptos e opositores, mas, julgo importante, de que, através de contato numa rede ou por e-mails, juntássemos forças para colocar em prática o que pensamos, quanto a políticos corruptos. A imprensa está fazendo sua parte, mas na hora H, não irá querer divulgar nomes e isso cabe a nós fazê-lo, para que possamos evitar a reeleição de muitos desses que se apoderam de recursos públicos.
Muito Grato por vossa opinião.
Bom final de domingo Sr. Marco.
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