Pensata

Eliane Cantanhêde

13/12/2007

Depois da derrota, a negociação

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A oposição teve uma estrondosa vitória política ao votar em bloco, segurar os dissidentes da base aliada e acabar com a CPMF, impingindo a maior derrota do governo Lula no Congresso em 6 anos.

Foi um importante freio de arrumação no bonde político, que vinha sacolejando com o Congresso enfrentando escândalos, a oposição frágil, sem discurso, e o governo muito forte, Lula achando que pode tudo. O equilíbrio político estava avariado, agora há chances de ser retomado.

O governo e Lula vão ter que baixar a crista, tratar o Congresso com mais respeito e negociar de fato com os partidos, inclusive os de oposição, em vez de sair por aí comprando votinho de parlamentar no varejo e achar que política é assim mesmo. Não é.

De outro lado, a oposição ganha um novo ânimo. O DEM foi quem levantou originalmente a bandeira contra a CPMF, pelas mãos do deputado Paulo Bornhausen (SC), e se manteve unido e sólido do início ao fim. O PSDB rachou em pedaços, com FHC segurando a rédea oposicionista, os governadores Serra, Aécio e os demais forçando uma negociação com o Planalto e a bancada de senadores ao vento, ora firme contra a CPMF, ora tendendo a se render à conversa do governo.

No fim, prevaleceu a liderança passional do amazonense Arthur Virgílio - o personagem fundamental de todo o processo -, a unidade da bancada tucana e a aliança PSDB-DEM. Venceu a tese política da importância de impor uma derrota de peso a um governo cada vez mais auto-suficiente, o que não é bom.

A votação, porém, não é o fim do mundo, nem mesmo teve um fim. Houve uma inversão do cronograma. Em geral, primeiro negocia-se, depois vota-se. Neste caso da CPMF, primeiro votou-se, agora negocia-se. A oposição precisava da vitória política, mas tem de ceder na negociação econômica. Nem o governo federal nem os governos estaduais - inclusive os dos tucanos e o do DEM no DF - podem prescindir do dia para a noite de uma receita de R$ 40 bilhões. Muito menos o sistema de saúde brasileiro, que já é o que é.

Há, pois, que negociar. Os líderes Arthur Virgílio, tucano, e José Agripino Maia, "demo", já anunciaram na própria madrugada da votação que estavam dispostos, a partir de agora, a sentar com o governo, ouvir propostas, contrapor um ponto ou outro e chegar a um acordo.

Para que isso pudesse ocorrer de forma equilibrada, saudável politicamente e com consequências positivas para o país, foi importante Lula e seu governo perderem. Eles descem do pedestal, a oposição sobe em importância. Há sempre patamares intermediários em que partidos sérios e homens de bem têm como conversar e se acertar. O que está em jogo não é mais apenas a política, é o equilíbrio financeiro e econômico. Deve haver uma recomposição, mesmo que parcial, de receitas. E tem que haver maior empenho do governo na gestão, no controle de gastos, na perspectiva da redução da carga tributária.

O fundamental, enfim, é que a vitória não seja apenas da oposição, mas do próprio país.

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.

E-mail: elianec@uol.com.br

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