Eliane Cantanhêde
Vôo de volta à normalidade
Vamos pensar juntos:
1 - O sistema de controle aéreo é o mesmo, as companhias aéreas continuam as mesmas (ou são menos ainda), os aeroportos continuam os mesmos, as pistas continuam as mesmas. E não houve uma mudança climática significativa (entre dilúvio sem parar e céu de brigadeiro contínuo).
Então, por que, de repente, não mais que de repente, o caos aéreo que enlouqueceu as pessoas durante um ano evaporou?
2 - O aeroporto de Congonhas continua o mesmo, o pátio continua o mesmo, as pistas continuam as mesmas, os prédios ao redor continuam os mesmos, os aviões continuam os mesmos, o sistema de controle aéreo continua o mesmo.
Então, por que, de repente, não mais que de repente, Congonhas foi desativado para várias operações (inclusive de escalas e conexões) e também de repente, não mais que de repente, foi anunciado que tudo vai voltar a ser como era antes?
A resposta é uma só: não houve governo durante um ano na aviação civil, agora está voltando a haver.
O choque do jato Legacy com o Boeing da Gol, que matou 154 pessoas em 29 de setembro de 2006, foi terrível e traumatizante, mas foi um episódio em si. Não justifica, ou não justificaria que dali em diante os atrasos, cancelamentos e crises fossem se multiplicando e transformassem tudo num caos, o caos aéreo.
Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desautorizou o Comando da Aeronáutica e tratou uma insubordinação militar como questão sindical, ele deu gás à crise. O governo deveria ter sido duro com os líderes, mas atendendo as justas reivindicações para melhorar o sistema fez o contrário: passou a mão na cabeça de militar insubordinado e não atendeu a reivindicação nenhuma.
O movimento dos controladores de vôo ficou organizado e forte. Eles fizeram operações-padrões e provocaram um efeito-cascata: já que virou bagunça, as companhias aéreas decidiram levar a melhor, a Infraero parecia uma barata-tonta e a Anac... bem, a Anac era aquilo que a gente está careca de saber, cheia de apadrinhados políticos e nenhum estofo técnico. Deu no que deu. Um estouro da boiada. E quem pagou o pato foram os consumidores, os pilotos, as comissárias, toda uma rede de agentes do setor.
Já havia passado meses de crise, sem controle, quando finalmente Lula viu que tinha feito tudo errado e restituiu a autoridade ao Comando da Aeronáutica, que passou a agir e a colocar a casa em ordem. Um tanto tarde demais. Enquanto a FAB tentava resolver a crise do sistema de controle de vôo, a Infraero já estava fora de controle, a Anac já pintava e bordava. A ponto de levar uma norma fajuta à Justiça para liberar a pista de Congonhas. E veio o novo acidente, com o Airbus da TAM, matando quase 200 pessoas.
O caos só piorou. A Infraero acusava a Anac, que acusava a FAB, que acusava as companhias. A falta de governo alimentou conflitos dentro do próprio governo. Daí a finalmente trocar tudo, de alto a baixo, com meses e meses de atraso.
Queiramos ou não, a verdade é que dezembro de 2007 marcou uma espécie de volta à normalidade. Isso significa que a operação foi uma maravilha? Não, não foi. Mas a normalidade não é uma maravilha nos grandes aeroportos do mundo, especialmente em momentos de pico, como Natal e Ano Novo. Mas a coisa funcionou razoavelmente bem para as circunstâncias, em especial na comparação com o que houve durante meses. Não vimos manchetes, fotos, gritos, lágrimas, longos noticiários sobre caos aéreo, vimos? Não, não vimos.
A volta à normalidade em pleno dezembro/janeiro e a promessa de volta às operações habituais de Congonhas só confirmam que o sistema não estava podre, apenas foi manipulado por falta de comando, falta de governo. Foi só o governo voltar a agir que o sistema está voltando a funcionar.
Agora, é ambicionar que a segurança também volte a ser a prioridade número um e que ninguém se contente com a mera "normalidade". É preciso evoluir para condições melhores de operação do centro nevrálgico, que é São Paulo, expandir a cobertura do país e ter uma relação profissional e séria com as companhias aéreas -- que, afinal, são concessões públicas. A nova Anac parece estar neste caminho promissor. A conferir.
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Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília. E-mail: elianec@uol.com.br |
