Pensata

Eliane Cantanhêde

18/03/2008

Só tapas, sem beijos

da Folha Online

A reunião de chanceleres da OEA (Organização dos Estados Americanos), na segunda-feira passada, aqui em Washington, acabou se revelando um erro estratégico e caracterizou um recuo no processo de paz entre a Colômbia e o Equador.

O encontro foi marcado na primeira reunião da OEA, cinco dias depois de a Colômbia bombardear as Farc em território equatoriano, como forma de criar um ambiente propício para selar definitivamente a paz. No meio tempo, porém, houve a reunião do Grupo do Rio (países da América Latina e do Caribe) que surpreendeu o mundo com o cumprimento dos presidentes Alvaro Uribe (Colômbia) e Rafael Correa (Equador) e, de quebra, um abraço sorridente de Uribe com o rival Hugo Chávez, da Venezuela.

A segunda reunião da OEA, a dos chanceleres, tornou-se assim desnecessária. Ou, pior ainda, perigosa. Sem propostas reais para serem discutidas e aprovadas, a reunião patinou em detalhes, verbos, expressões. E, ao cair no campo da retórica, reativou o clima hostil entre as delegações da Colômbia e do Equador.

"Esta reunião foi mal preparada", criticou o chanceler brasileiro, Celso Amorim. Resultado: foram 14 horas de debates e divergências que criaram uma novidade na OEA: as reuniões ali são geralmente abertas à imprensa, mas não desta vez.

O resultado é uma resolução pífia, que volta a condenar o bombardeio promovido contra as Farc em território equatoriano, defende o combate a atividades de grupos ilegais e criminosos, especialmente "vinculadas ao narcotráfico" e empurra o resto com a barriga até a assembléia-geral da OEA, em junho, em Medelín. Houve zero de propostas práticas.

A expectativa otimista era que os chanceleres da Colômbia, Fernando Araújo, e do Equador, Maria Isabel Salvador, dessem um passo concreto para reatar as relações diplomáticas entre os dois países. Ao contrário, eles deram um passo atrás no processo de paz. Entre acusações mútuas e intermináveis, saíram tão rancorosos quanto entraram.

Reuniões diplomáticas desse porte costumam ser entre tapas e beijos. Desta vez, só houve tapas. Equivale a dizer: a crise continua.

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.

E-mail: elianec@uol.com.br

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