Pensata

Eliane Cantanhêde

07/05/2008

Efeito bumerangue

A ministra Dilma Rousseff deu um banho na Comissão de Infra-Estrutura do Senado. Também, pudera. A primeira providência da oposição foi destacar sua condição de vítima da ditadura militar e lhe dar palanque para um contundente discurso sobre seu papel na resistência à época.

Dilma lembrou que tinha 19 anos (19 anos!) quando foi presa, torturada e acabou passando dois anos na cadeia. Falou do quanto dura é a tortura e do quanto dói. Mostrou que mentir, nesse caso, era um ato de bravura, uma "honra". "Eu não tinha nenhum compromisso em dizer a verdade para a ditadura."

E aproveitou para uma estocada tão sutil quanto profunda contra o senador José Agripino Maia, do DEM, que tinha tentado colocar a ministra contra a parede, acusando-a de falar mentiras e de defender mentiras. Depois de falar da ditadura, da tortura, dos desaparecimentos e das mortes, foi no fígado: "E nós estávamos em campos opostos". Ou seja, ela na resistência a tudo isso. Ele, oriundo da Arena e do PDS, a favor.

A oposição encolheu, Dilma cresceu e passou a fazer um verdadeiro comício sobre as vitórias do país durante o governo Lula, do "investment grade" aos índices de desenvolvimento que se mantêm positivos há vários trimestres, ao aquecimento da indústria, à criação de empregos e até a programas específicos, como o Prouni e o Pronaf. Até comparou: no Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil é campeão no combate à desigualdade social.

Ao contrário da desastrada entrevista que a ministra deu no Planalto para tentar defender o indefensável --o dossiê da Casa Civil contra o governo FHC---, Dilma estava segura, composta. Até quando se atrapalhou com a palavra "monitoramento", ela riu e deu a volta por cima.

Só depois de ganhar a situação, ela passou ao tema da convocação, que é justamente o que ela mais gosta: o PAC. E não teve pressa em falar de megawatts, enumerar vários rios desconhecidos, projetos mirabolantes e fantásticos. Evidentemente, ganhava tempo no seu terreno, para adiar a entrada no pantanoso terreno da oposição: o dossiê.

Dilma está muito segura ao falar de tortura, dos sucessos do governo e do PAC. Ao falar sobre o dossiê, seu calcanhar-de-Aquiles, a voz muda, o olhar desvia, ela fica evidentemente desconfortável. Mas ela não derrapou no conteúdo e isso reforça a impressão de que a estratégia da oposição de convocar a ministra teve um efeito bumerangue. Dilma pode nem ter ganho, mas com certeza não perdeu. E a oposição perdeu. Perdeu o discurso, a condição de ataque. É sempre bom ouvir autoridades e o debate entre oposição e governo. Mas, no caso, foram horas e horas, aparentemente, para nada.

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.

E-mail: elianec@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca