Eliane Cantanhêde
A cruz e a caldeirinha
O leitor, em geral, tende a achar uma chatice insuportável a guerra partidária para eleger os presidentes da Câmara e do Senado, como agora. Mas essa guerra é importantíssima, porque tem reflexos diretos no equilíbrio governista, deixa mágoas profundas (dos perdedores) e dívidas bem caras (dos ganhadores), que acabam desembocando no que mais interessa: a sucessão presidencial.
O jogo está assim neste momento: há um acordão dos partidos governistas, liderado pelo PT, para eleger o deputado Michel Temer, do PMDB, para a presidência da Câmara. E isso deixa implícito (mas não formalizado) que a presidência do Senado fica, então, com o PT. Mas...
O candidato mais forte é o senador petista Tião Viana (AC), que ocupou o cargo interinamente na época da barulhenta investigação do peemedebista Renan Calheiros (AL). Mas é justamente aí que mora o perigo: Renan, que faz dobradinha com o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP), não aceita a candidatura de Tião. Acha que ele foi seu algoz, ou pelo menos aliado dos seus algozes. (Será que o problema de Tião é pelo que fez de bom? Você decide...)
Com isso, a guerra que seria apenas parlamentar cai em cheio no Palácio do Planalto, onde Lula quer tudo, menos crise entre PT e PMDB. Até por isso, ele não foi no segundo turno nem a Porto Alegre nem a Salvador, onde os dois partidos concorriam cara a cara (o PMDB, aliás, ganhou em ambas).
Se o PMDB não der a presidência do Senado para o PT, o PT vai devolver na mesma moeda e tirar a da Câmara do PMDB. Já imaginou que bagunça?
Do lado de fora, mas nem tanto, o PSDB e o DEM espreitam, torcendo para o circo pegar fogo. Porque o PMDB foi o grande vitorioso das eleições municipais, desde o primeiro turno até o segundo, e é a "noiva" mais disputada por oposição e governo para 2010. Ou seja: por José Serra e Lula-Dilma Rousseff. Uma fratura PT-PMDB no Congresso seria um gol para Serra e um gol contra para Lula-Dilma
Você aí pode achar um assunto chato, mas Lula não acha nem um pouco. Aliás, ele só pensa nisso. Além, evidentemente, da crise financeira internacional -- que, essa sim, tende a ser o principal fator dos resultados políticos de 2010, para um lado ou para o outro.
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Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília. E-mail: elianec@uol.com.br |

